Diálogo e Identidade

André Porto

“Diálogo, reflexão conjunta, observação cooperativa da experiência, é uma metodologia de conversação que visa melhorar a comunicação entre as pessoas e a produção de idéias novas e significados compartilhados. Ou, posto de outra forma, é uma metodologia que permite que as pessoas pensem juntas e compartilhem os dados que surgem desta interação sem procurar analisá-los ou julgá-los de imediato.”
Humberto Mariotti


Parece ser importante tentarmos dar um novo cunho à palavra diálogo, que muitas vezes é entendida erroneamente como debate. Os modelos de comunicação e relacionamento que recebemos através de nossa cultura e pela educação acentuam as qualidades individuais como criatividade e competitividade. Assim, facilmente rotulamos e aprisionamos o potencial aberto do diálogo, desviando-nos para o debate clássico de idéias. A habilidade e disposição para ouvir intensamente e tentar compreender o outro é considerada menos importante do que a capacidade de convencer e impor suas idéias. Em geral, ouvimos as pessoas por alguns segundos para avaliar se concordamos ou divergimos delas; a partir daí mudamos nosso foco de atenção, pois não interessa mais.

A lógica dualista que vem nos conduzindo na ilusão simplista do certo e errado, do bem e do mal, do Céu e do Inferno, da Direita e da Esquerda, distorce os processos de auto-entendimento e de comunicação do ser humano. Ficamos polarizados esquizofrenicamente entre conceitos e ideologias estreitas e antagônicas, míopes para as infinitas possibilidades do caminho do meio. Ao invés de apreciarmos a vida e o que há de bom nos outros, na maioria das vezes, passamos o tempo julgando e comparando.
O diálogo revela e soma a experiência e a intuição das pessoas num processo de respiração de idéias. Na construção da Cultura da Paz é vital que o conceito de diálogo e comunicação humana seja revisitado e impregnado com novas experiências. Esta ruptura é extremamente necessária no mundo globalizado. Precisamos da sabedoria acumulada por todos os povos para garantir a superação dos problemas sérios que criamos e que ameaçam toda a vida no planeta. O diálogo nos ensina a lógica extraordinária de que um mais um é mais que dois. Duas cabeças podem pensar bem melhor que uma só.

O diálogo também não é simplesmente um processo de fusão de conceitos ou de busca constante por entendimento e homogeneidade. Cada um absorve para si aquilo que consegue da química troca de elementos proporcionada quando estamos dialogando. Uma terceira idéia comum poderá surgir ou não.

O principal desafio implícito no processo de diálogo é vencer o medo do desconhecido e abrir nossa consciência para os sinais e mensagens estranhos a nós que ainda não decodificamos. O outro, pelo contraste de suas diferenças, produz geralmente uma reação de desconforto. Tanto no plano individual como no coletivo, nossos valores, princípios e estruturas psíquicas e emocionais garantem uma base operacional para lidarmos com o dia a dia. A ameaça àquilo que sustenta nossa identidade pessoal ou coletiva ativa nosso instinto de proteção e normalmente nos fechamos. É ainda difícil a naturalidade da percepção de que só existe uma Humanidade. Por mais diferentes que nossos costumes e crenças possam ser a nossa essência cósmica é uma só.

A mística da Globalização parece vir justamente das infinitas possibilidades de diálogo e apreciação entre as mais diversas culturas e tradições espirituais. Novas pontes conceituais substituem antigos estereótipos e preconceitos. Podemos transpor a abertura do processo de diálogo no microcosmo de indivíduos para o macrocosmo das sociedades humanas. O relacionamento, incluindo o comércio, entre as civilizações é como o sangue que alimenta e move a história. O diálogo é uma ferramenta essencial para a construção de um futuro possível para todos. Diferentes civilizações podem vir a consubstanciar um novo ethos para a espécie.

Voltando o olhar para o passado da humanidade podemos aprender com a cíclica tragicomédia antropofágica da história. Vemos como civilizações foram engolindo umas as outras, assimilando seus deuses, arquétipos e mitos, além das tecnologias e recursos. A cosmogonia e as simbologias da Civilização Suméria são encontradas na antiga Babilônia, revestidas no Egito, reproduzidas na Grécia e usurpadas finalmente pelo Império Romano.

O diálogo e a apreciação oferecem alternativas para essa forma corriqueira e colonial de apropriação e exploração entre os povos. Não existem fórmulas para haver Paz na Terra que não comecem pela soma de todos os elementos. A lógica da complexidade holográfica precisa suplantar a do reducionismo dualista, para então vivermos a unidade na diversidade. Somos um e muitos ao mesmo tempo. Somos o problema e a solução. Somos o início e o fim.

A grande prova de nosso tempo parece estar na intercessão das grandes civilizações e não no choque entre elas. O desafio do diálogo entre as civilizações representa um novo mito que nos aponta para a ruptura com nossa antropofagia espiritual. Uma metamorfose é imprescindível para sairmos do casulo de nossos conceitos enrijecidos e ultrapassados. No livro O Choque entre as Civilizações (The Clash of Civilizations), do sociólogo americano Samuel Huntington, se apresenta uma visão esquartejada e distorcida da dinâmica interatividade da relação entre as civilizações. Sua lógica acentua os modelos dualistas, excludentes e dominadores que conduzem ao sempre ao conflito. Deixa de levar em consideração toda a interação harmônica e criativa que se deu entre miríades de povos. Precisamos desconstruir esta retórica de uma elite desavergonhadamente opressora.

Se descobrirmos o equilíbrio entre Tradição e Modernidade, poderemos ter uma visão apreciativa e fértil da amplitude do mosaico da cultura humana. Este paradigma de uma só Humanidade, viva e deixando viver, evoluindo para o seu destino cósmico, pode vir a inspirar e mobilizar muitas pessoas. Quando alguém descobre a diversidade e riqueza da sabedoria universal da humanidade, desenvolvida ao longo de centenas de milhares de anos, não é difícil vislumbrar a nossa unidade espiritual. Uma bela imagem nos ofereceu a Ciência, que pela Teoria da Eva Genética comprova a ascendência genética comum de todas as raças a uma mulher no oeste da África há cerca de 200 mil anos. Compartilhamos uma única tataravó, uma grande Mãe espiritual de nossa espécie. É tempo de celebrarmos nossa unidade.

Em face aos problemas éticos e ambientais que ameaçam toda a vida na Terra, a força da nossa cidadania, capacitada a dialogar e cooperar por um mundo melhor, é o elo da corrente que forma as redes de solidariedade. Muito se avançou no século vinte quanto à promoção da cidadania. No entanto, ao invés de nos tornarmos cidadãos mais sábios nos transformamos em consumidores inconseqüentes. O domínio do secularismo, materialismo e consumismo sobre quase todas as nossas sociedades geraram um desequilíbrio entre as funções ser e ter. Apesar de o Mercado rotular as pessoas como consumidores, temos sempre que lembrar que antes somos cidadãos. Nossa identidade, com suas raízes e asas, é plena de sentido e a expressamos sem necessidade de nenhuma parafernália. Contudo, fomos programados para acreditar que, para ser alguém, você precisa ter muitos bens que irão lhe proporcionar referências e símbolos de poder. O materialismo desenfreado gera uma constante insatisfação e uma busca ansiosa por mais objetos que justifiquem nossa existência. A idolatria ao dinheiro substituiu qualquer noção de bem espiritual.

Para construirmos nossa identidade globalizada basta usar Nike, comer no McDonald’s, beber Coca-Cola, comprar com Visa e ver a CNN. Não importa se nossos hábitos de consumo estão destruindo todo o planeta e seus recursos naturais e se o mundo se torna mais quente e seco a cada dia que passa. A economia não pode desacelerar! O dinheiro faz a Terra girar e não existe nenhuma ideologia tão forte quanto a dele. O poder econômico define o que está certo e o que está errado, quem ganha e quem perde. As gigantescas corporações, políticos e policiais corruptos, fracos governos privatizados, cartéis do narcotráfico, seguros de saúde, todos querem o seu dinheiro. Não importa se é vendendo armas, minas terrestres, comidas cancerígenas, drogas, cigarro, álcool, telhas de amianto ou produtos mais saudáveis. Tudo em nome do livre mercado, tudo pela retórica do dinheiro.

O maior desafio apresentado pela Globalização é como sairmos desta armadilha suicida. A população mundial se tornou refém de uma monocultura onde o consumo e o lucro ilimitado são a razão da existência. O todo-poderoso Mercado segue pavimentando o monoconsumismo e a Mídia segue promovendo a homogeneização cultural, quase sempre primando pela boçalidade e abuso da exibição da violência e do sexo. As bases éticas e valores humanos necessários para qualquer sociedade saudável não cabem num mundo feito para ser um playground de ávidos consumidores frenéticos com suas últimas aquisições inúteis. Se não temos ambições além do progresso material para que precisamos de uma ética? Valores universais como o amor, a simplicidade, honestidade, solidariedade e cooperação são parte da vida de muitas pessoas, mas aquelas que tomam as decisões nos grandes negócios e governos estão geralmente ocupadas com coisas mais lucrativas. As elites dominantes sempre utilizaram a lei do mais forte e da lógica dualista, fragmentando tudo, seguindo o velho lema dividir para governar, no sentido de se autoperpetuarem.


A PRÁTICA DO DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO

No processo do diálogo inter-religioso, o maior temor por parte das Tradições é a ameaça da dissolução de identidades e do sincretismo religioso. No entanto, a prática mostra justamente o contrário. Através do contraste gerado pelo diálogo fica mais fácil entendermos nossa própria fé e identidade espiritual, levando a um aprofundamento de nossa Tradição. Claro que podemos perceber que há muita coisa em comum nas religiões, afinal todos compartilham do mesmo Logos Humano. Assim o princípio da unidade na diversidade é a base para qualquer processo de diálogo inter-religioso.

Em 1993 participei do Parlamento das Religiões do Mundo que aconteceu em Chicago e entrevistei um monge americano da ordem Católica Trapista. Esta ordem religiosa está engajada em um programa de diálogo inter-religioso muito interessante com o Budismo Tibetano. Eles passam um semestre em Daramsala, a sede do governo Tibetano exilado na Índia, meditando com os monges Budistas. Posteriormente todos participam, no Arizona, num mosteiro beneditino, de um longo retiro. Quando eu perguntei porque ele estava ali, me disse: “Eu me descobri no diálogo inter-religioso. No início eu tinha um preconceito enorme contra os religiosos orientais, mas quando comecei a conhecer na essência, principalmente quando comecei a meditar com os monges tibetanos, passei a perceber que na essência nós temos muito mais coisas em comum do que diferenças.”

Ao longo da história há vários registros de atividades e trocas entre religiões. Um resumo das iniciativas e conceitos principais desta jornada pode nos auxiliar a descobrir o potencial do diálogo e da apreciação.

Na Índia do século 16, o imperador Akbar promoveu a tolerância e o convívio pacífico entre o Islamismo e o Hinduismo. Ele se cercava de sábios de várias tradições e buscou organizar uma ordem fraternal denominada Dini-Ilahi (Divina Fé), baseada na harmonia entre as pessoas e na essência do Islamismo, Brahmanismo, Cristianismo e Zoroastrismo. Esta iniciativa não foi adiante após sua morte em 1605.

No século 19, no Irã, Bahá’u’lláh, fundador da Fé Baha’I explicava em seus discursos a universalidade das religiões e seus princípios comuns, pregando a unidade da Humanidade. Para ele, todas as grandes religiões são manifestações do Plano Divino.

Um primeiro evento inter-religioso oficial reunindo tradições Ocidentais e Orientais ocorreu em Chicago, em 1893. No primeiro Parlamento das Religiões do Mundo, líderes de dezesseis religiões participaram de sessões de diálogo e palestras. Entre os participantes se encontrava o Swami Vivekananda, que trouxe o Hinduismo para o Ocidente. Este encontro foi um marco na história do diálogo inter-religioso. Cem anos depois, em 1993, o segundo Parlamento das Religiões do Mundo, já citado, aconteceu novamente em Chicago, desta vez reunindo centenas de expressões espirituais e milhares de pessoas. Na programação havia em média 20 eventos simultâneos abarcando todo tipo de tema correlato ao diálogo inter-religioso e às atividades espirituais e sociais das tradições. O documento Para Uma Ética Global foi redigido e apresentado durante o evento.

Em 1999, na Cidade do Cabo, aconteceu a terceira versão do evento, desta vez ainda maior. Após o encontro, uma assembléia de líderes religiosos elaborou um plano de ação. O próximo vai ser em 2005 em Barcelona. O Conselho para o Parlamento das Religiões do Mundo (CPWR) funciona como um programa inter-religioso permanente para a região metropolitana de Chicago.

Um momento inter-religioso também muito importante aconteceu em outubro de 1986, quando o Papa João Paulo II reuniu várias lideranças religiosas de diferentes orientações em Assis na Itália. Este encontro se repetiu em janeiro de 2002.

Algumas organizações internacionais como a Conferência Mundial sobre Religiões e Paz-WCRP, a Associação Internacional para Liberdade Religiosa-IARF e o Congresso Mundial das Religiões-WCF, contribuem muito em processos de mediação de conflitos e promoção da liberdade religiosa. Nos Estados Unidos, o Templo da Compreensão (Temple of Understanding) e o Centro Inter-Religioso de Nova Iorque-NYIC promoveram várias metodologias de diálogo inter-religioso. Em Oxford, na Inglaterra surgiu em 1994 o Centro Inter-Religioso Internacional-IIC que vem contribuindo muito através de seminários acadêmicos, um excelente boletim e diversas publicações. Em seu livro Testando a Ética Global: Vozes das Tradições sobre Valores Morais, o diretor do IIC, o Rev. Marcus Braybroke, articula uma excelente fundamentação filosófica para o diálogo inter-religioso. Uma publicação excelente que inclui praticamente todas as iniciativas inter-religiosas é o Sourcebook-For Earth’s Community of Religions publicado por Joel Beverluis, de Michigan, todo disponível na Internet.

O Banco Mundial também deu início a um processo de diálogo inter-religioso sobre as questões do desenvolvimento e da pobreza denominado (World Faith Dialog on Development-WFDD). O grupo de religiosos e acadêmicos desenvolveu uma visão espiritual profunda sobre as causas da miséria. O WFDD se tornou um grupo independente do Banco Mundial e continua promovendo o diálogo inter-religioso voltado para as questões sociais.

Um modelo muito interessante de diálogo e cooperação inter-religiosa permanente é a Iniciativa das Religiões Unidas (URI) que opera através de 200 círculos de cooperação locais em 60 países em todos os continentes. A URI surgiu em São Francisco, na Califórnia, em 1996. Por ocasião das comemorações do cinqüentenário da ONU em 1995, que aconteceram em São Francisco, o Arcebispo Anglicano William Swing foi convidado pela ONU para organizar uma grande celebração inter-religiosa. O evento fez com ele refletisse sobre a necessidade de promover o diálogo e a cooperação entre as religiões em caráter permanente. Com esse sonho, ele viajou pelo mundo, buscando compartilhar sua visão e conhecer melhor outras iniciativas inter-religiosas.

Através de uma série de cinco grandes encontros anuais a URI reuniu de 1996 a 2000 mais de mil pessoas dedicadas ao diálogo e à construção da cultura da paz. Esta comunidade, que envolve pessoas de mais de 80 tradições religiosas, grupos espirituais e nações indígenas escreveu conjuntamente durante esses anos a Carta da URI, que contém o propósito e os princípios da URI. Este documento foi assinado por todos os membros da URI em junho de 2000. O propósito da Iniciativa das Religiões Unidas é contribuir para a erradicação da violência de motivação religiosa e criar culturas de paz, justiça e cura para a Terra e para todos seres vivos. Em sua Agenda de Ação a URI tem como pontos principais justiça social, direitos humanos, ecologia, cultura da paz e diálogo inter-religioso.

No Brasil, precisamos registrar uma contribuição importante da Legião da Boa Vontade (LBV), que pode ser considerada a primeira instituição a promover o diálogo inter-religioso no Brasil. Num artigo do Jornal a Noite, de 18 de junho de 1956, lê-se: “Considerando que todas as religiões impõem um papel preponderante na espiritualidade do homem, a LBV teve a feliz iniciativa de reunir representantes de todos os credos que se professam nesta capital e, confraternizados, cada um per si expôs as bases das respectivas doutrinas. Desta forma a LBV levou a efeito em outubro, novembro e dezembro de 1949 reuniões em que falaram representantes do catolicismo, protestantismo, espiritismo, budismo, maometismo, positivismo, bramanismo, esoterismo, umbandismo etc.”

No cenário atual, temos o Movimento Inter-Religioso do Rio de Janeiro (MIR), que surgiu na ECO-92, exatamente em junho de 1992, durante uma vigília inter-religiosa pela Terra que reuniu 25 mil pessoas de 25 tradições no Aterro do Flamengo. A partir daí houve o interesse por parte das tradições em continuar o processo iniciado na vigília. O MIR se tornou um programa permanente do ISER - Instituto de Estudos da Religião, organização não-governamental sediada há 33 anos na cidade do Rio de Janeiro.

Em seu documento base, o Movimento Inter-religioso do Rio de Janeiro afirma que “As iniciativas e prioridades do MIR refletem o senso comum das mais de vinte religiões históricas, tradições e movimentos espirituais que participam há dez anos do Movimento. Através de seus representantes, uma rede imensa de parcerias e amizades se forma envolvendo a cidade em círculos de solidariedade e paz, e dela para o Brasil e o Mundo.”

E prossegue: “Um programa de encontros mensais iniciou-se em março de 1993 e continuou até o início de 1995. Cada tradição se revezava para comandar uma celebração baseada em sua própria tradição: o aniversário de Buda, a Páscoa ou o Ano Novo chinês, por exemplo, sempre promovendo o intercâmbio e o respeito mútuo. A cada mês uma média de 50 pessoas de diferentes grupos compareciam. Estas pessoas desenvolveram uma forte amizade e compreenderam que elas tinham mais em comum do que imaginavam. Elas aceitaram o conceito de Unidade na Diversidade e sentiram a importância de acabar com os preconceitos e a incompreensão, levando a ação do MIR para uma esfera ainda mais ampla. Foi assim que já em 1992 o MIR apoiou o Movimento Pela Ética na Política. E a partir de 1993 participou ativamente da Campanha da Fome e das manifestações pela Paz organizadas pelo Viva Rio.

Concluindo, o documento ressalta que “recentemente, por exemplo, a Agenda do MIR se concentra na questão do Ensino Religioso nas escolas públicas e no desenvolvimento do Centro de Referência à Discriminação Religiosa. Uma Agenda Anual é definida pela Plenária do MIR, encaminhada pelo Conselho Deliberativo e tem sua implementação avaliada durante as reuniões plenárias mensais do MIR. Para o ano de 2002 as prioridades são: a Assembléia Global da URI, o Ensino Religioso e o Centro de Referência à Discriminação Religiosa.”

O MIR é também um Círculo de Cooperação da URI - Iniciativa das Religiões Unidas. Desde 1997 houve uma intensa troca de experiências entre o MIR e a URI. Em maio de 1999, houve o Primeiro Encontro Nacional Inter-Religioso da URI em Itatiaia, que reuniu cerca de 140 pessoas.

Para alguns participantes do Encontro, vivenciar por quatro dias uma reunião inter-religiosa foi uma experiência totalmente nova. Para outros o diálogo inter-religioso tem sido uma prática regular há décadas. Jovens encontraram anciões. Alguns monges se sentaram pela primeira vez ao redor da mesma mesa com pessoas de outras religiões. Cerca de vinte índios brasileiros estavam lá entrosados com o grupo, alguns tendo suas primeiras experiências multiculturais. Alguns participantes estavam oficialmente representando suas organizações, enquanto outros estavam por si mesmos. As razões pessoais por que cada um estava lá, quais eram suas expectativas e sonhos, como eles reagiram e sentiram o evento, ainda serão mais bem compreendidas.

O programa do encontro foi desenhado no intuito de promover um diálogo frutífero entre os participantes e criar oportunidades para as diversas iniciativas inter-religiosas brasileiras e a URI apresentarem suas atividades principais. A metodologia Investigação Apreciativa, criada pelo SIGMA Institute e aplicada por David Cooperrider, proveu o elemento dinamizador. O programa consistiu de sessões de trabalho em pares, pequenos grupos e como uma assembléia, e também incluiu cerimonias espirituais e meditações.

Em agosto de 2002, a Assembléia Global da URI ocorre no Rio de Janeiro. O MIR e o Círculo de Cooperação de São Paulo foram os anfitriões e o Viva Rio o organizador do evento. Sob o tema Compartilhar o Sagrado e Servir ao Mundo, centenas de pessoas de 50 países e mais de 60 tradições transformaram o Rio na capital espiritual do mundo.

Atividades fundamentadas no diálogo e na cooperação inter-religiosa foram desenvolvidas para promover a integração de ações pela melhoria da qualidade de vida e pela paz mundial. Cada participante trabalhou lado a lado com representantes de diversas expressões espirituais e culturais através de workshops, sessões de treinamento, eventos musicais e meditações.

Simultaneamente às atividades desenvolvidas no Hotel Glória, a Assembléia Global da URI foi integrada à população da cidade do Rio de Janeiro através da Aldeia Sagrada, um verdadeiro mosaico espiritual e cultural totalmente aberto ao público. Durante a Assembléia, as tradições integrantes do MIR desenvolveram oficinas, vivências, rituais, meditações, orações, palestras e cursos. Também se apresentaram exposições de arte, fotografias, vídeos, poesias, danças, músicas e performances. A Aldeia Sagrada foi realizada ao redor do Outeiro da Glória: na sede do Viva Rio e no Parque Lúcio Costa.

O objetivo foi exemplificar e comunicar os princípios inter-religiosos através da prática. Cada Tradição expôs em uma tenda própria sua sabedoria espiritual e seu trabalho para a construção de um mundo melhor. A busca comum pela paz, a vivência da unidade na diversidade, as possibilidades do diálogo e da cooperação entre instituições e pessoas de fé e boa vontade foram observados por todos os cantos da Aldeia Sagrada.

Seguir o caminho que percorreu toda a Aldeia foi como fazer uma peregrinação cultural e espiritual ao redor do mundo. A Aldeia Sagrada abrigou povos e tradições de todas as direçõe buscando um rumo comum: um futuro possível de sobrevivência para toda a Humanidade, a Terra e os seres vivos.

No Rio de Janeiro reúne-se a complexa matriz humana, em toda a sua exuberância, sons, cores, símbolos, mitos, ritos e filosofias. A localização da Aldeia Sagrada representou bem o espírito do evento: a espiritualidade presente na realidade do dia a dia, centrada na resolução dos conflitos e problemas na sociedade.

CONCLUSÃO

Uma contra-cultura está emergindo baseada no diálogo, nas intensas atividades da sociedade civil e em valores que transcendem a dimensão material. Redes locais, mundiais, comunitárias e inter-religiosas se expandem por todo o planeta promovendo iniciativas éticas, inclusivas e de cura. O intercâmbio entre movimentos sociais e espirituais, entre espiritualidade e compromisso social, gera elementos essenciais para a cultura da paz. Estas dinâmicas, diálogos, parcerias, campanhas e programas consubstanciam a cultura da paz. Não existe uma cultura sem linguagem, símbolos e mitos próprios. Descobrir valores e símbolos que inspirem a humanidade a cuidar melhor de si e de todos os seres vivos é uma missão para todo cidadão. A Terra precisa de seis bilhões de heróis para ser salva.

A prática do diálogo apreciativo e o exercício de nossa cidadania espiritual têm um efeito multiplicador e contagiante. A reverberação do bem comum e do diálogo nos corações das pessoas de nossos círculos cria ondas que se espraiam através de nossas vidas. Compartilhar o sagrado e servir ao mundo, o tema da URI para os próximos três anos, resume muito bem o caminho que se abre para as pessoas através do diálogo. Só através de nossa unidade espiritual poderemos nos conduzir para a realização plena de nossa extraordinária Humanidade.

André Porto
Coordenador de Eventos do Viva Rio, é Coordenador latino-americano da United Religions Initiative-URI (Iniciativa das Religiões Unidas) e Coordenador do Movimento Inter-Religioso do Rio de Janeiro. É também astrólogo.


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