Identidade e Voz Indígenas
Eliane Potiguara
I - Introdução
COMPROMISSO COM A CULTURA E O PENSAMENTO INDÍGENAS
A coisa mais bonita que temos dentro de nós mesmos é a dignidade.
Mesmo se está maltratada. Mas não há dor ou tristeza que
o vento ou o mar não apaguem. E o mais puro ensinamento dos velhos,
dos anciãos, parte da sabedoria, da verdade e do amor. Bonito é florir
no meio de ensinamentos impostos pelo poder. Bonito é florir no meio
do ódio, da inveja, da mentira ou do lixo da sociedade. Bonito é sorrir
ou amar quando uma cachoeira de lágrimas nos cobre a alma! Bonito é poder
dizer sim e avançar. Bonito é construir e abrir as portas a partir
do nada. Bonito é renascer todos os dias. Um futuro digno espera os
povos indígenas de todo o mundo. Foram muitas vidas violadas, culturas,
tradições, religiões, espiritualidade e línguas
destruídas.
A verdade está chegando à tona, mesmo que nos arranquem os dentes! O importante é prosseguir. É comer caranguejo com farinha, peixe seco com beiju e mandioca. É olhar o mar e o céu. E reverenciar os mortos, os ancestrais. É sonhar os sonhos deles e vê-los. É conviver com as “manias de cabôco”, mesmo sufocados pela confusão urbana ou as ameaças agrestes, porque na realidade são as relações mais sagradas de nosso povo, porque são relações com a Terra e com o criador, nosso Deus Tupã. Bonito é vestir os trajes do Toré e se honrar como se vestira os trajes dos reis e senti-los como a expressão máxima das relações entre o homem, a Terra e Deus. É sentir o Sagrado e o Universo. O importante é crer e confiar, mesmo que se na noite anterior violaram nossa casa ou nosso corpo. É preciso ouvir os velhos, o som do mar, dos ventos. É preciso a unidade entre as famílias. Por isso pedimos a Tupã que nos proteja e dê um basta ao sofrimento secular de nosso povo comedor de mandioca. Pedimos à força superior que nossos pensamentos se elevem aos mais profundos planos sagrados da espiritualidade indígena, junto aos velhos, aos curandeiros, aos velhos pajés, muitas vezes apagados pelo poder, mas renascidos como FORÇA pela consciência do povo. Pedimos que nossos espíritos se elevem ao mais sagrado da sabedoria humana e recebam a irradiação do amor, da paz e do conhecimento em todas as nossas cabeças indígenas e de outras etnias e povos, transformando todo pensamento discordante, conflituoso, em pensamento de paz. Que nossos espíritos assim elevados construam a unidade entre todos os seres do planeta Terra.
Que possamos construir a partir de agora uma grande frente de energias, apoiada por todos que lêem ou ouvem esse compromisso, para garantir a dignidade de povos abandonados, condenados à extinção.
Não! Não podemos admitir a derrota. Há jovens, crianças sorrindo, há mar, há sol, há esperanças. Há espiritualidade! Basta que soltemos as amarras do racismo imposto ao nosso subconsciente, esse inimigo que divide o nosso povo.
Abramos a porta. Entremos. Nossos velhos nos esperam para a cerimônia da paz e da luz inquebrantável.
Um grande marco se está colocando aos anciãos, aos guerreiros, nossos avós, nossas mães, nossos velhos defensores eternos da Terra e da Natureza.
Vamos, meu povo, elevemos nossos pensamentos a Tupã e abramos o nosso
coração na Oração pela Libertação
dos Povos Indígenas pelos 300 milhões de indígenas que
habitam o planeta Terra. E pensemos na frase sábia do cacique Xavante
Aniceto: “A palavra da mulher é sagrada como a Terra”.
II - Relação de gênero na espiritualidade indígena
e
o combate à violência
A FORÇA DO CONHECIMENTO ANCESTRAL
Por quê agüentamos tanta violência? Nós, mulheres dos segmentos dos povos indígenas e afrodescendentes ainda agüentamos tanta violência porque não reforçamos a nossa mulher interna, a mulher selvagem que existe dentro de nós, a mulher primitiva, no sentido “primeiro”. Uma mulher deve andar com a força a sua frente, a profunda natureza intuitiva dessa mulher deve prevalecer na dualidade obrigatória de toda a mente feminina. E QUEM DÁ ESSA FORÇA? Receber a herança ancestral de nossa família ou de uma cultura é uma missão a cumprir, isso é praticamente obrigatório dentro da anima. Mas levar adiante essa herança é SABEDORIA. Quais as rasteiras que devemos dar no neocolonizador, no opressor político-cultural para despertarmos a força interior e transformá-la em sabedoria e arma para o crescimento da humanidade e melhor qualidade de vida? Como purificar a persona que existe em nós, com tantos vícios impostos pelo sistema político e econômico que nos racializa, nos oprime, nos mata e torna nossa auto-estima deplorável e faz com que aceitemos pacíficas, durante séculos, a violência, seja física, psicológica, sexual, mental e até espiritual!!!! Franz Fanon mostra em seu livro “Condenados da Terra” os resultados psicológicos maléficos da opressão política e racial ao povo argelino e há mais de 20 anos temos lido esse texto, tão atual ainda nos dias de hoje!!!!
A chama do conhecimento ancestral seja indígena ou oriunda de outras raízes deve ser despertada imediatamente na anima de todas as mulheres e dos homens também, para que possa despertar o feminino dentro deles e a parceria homem/mulher seja comungada dentro dos princípios dos direitos humanos mais transcendentais. Quando despertamos essa força começamos a reconhecer a sombra negativa da nossa psique, os aspectos negativos de nosso comportamento, o nosso inimigo interno e neste processo começamos a reagir contra a opressão, o racismo e a destruição causados a nossa persona, que vai se somando a milhares e milhares de mentes do planeta Terra nestas partes do mundo que se permitem chamar “Terceiro Mundo”, obscuro, oprimido social, racial, econômica e politicamente.
Os aspectos da cultura de alguns povos, como o sacrifício ou a mutilação de partes do sexo feminino numa cultura oriental é uma distorção cultural causada pela ação dos imperialistas. E, em outro contexto, a identidade masculina para defender suas mulheres indígenas, por exemplo, fazendo com que as mulheres tivessem dor no ato sexual, vinculando assim o prazer à dor. Assim, as mulheres indígenas não aceitariam a submissão ou ofertas de qualquer homem branco que chegasse. Ao longo da história, o homem teve que mudar seu comportamento para com a mulher indígena, numa tentativa desesperada e inconsciente que pudesse preservar a família. No período da colonização portuguesa e espanhola, no Brasil, os homens indígenas levavam toda sua família a se jogar do alto dos penhascos, constituindo o suicídio coletivo contra a escravidão e a destruição cultural. Nos tempos modernos, o suicídio, a submissão, o alcoolismo, a desesperança, têm sido sintomas desta opressão.
O empobrecimento econômico de nossas vidas, o racismo, a intolerância, o desequilíbrio da nossa biodiversidade causam timidez, conformismo, baixa auto-estima, sentimento de culpa, infelicidade, angústia interior, insatisfação constante e concessão ao dominador, sim, concessão ao dominador. Esse processo desestabiliza o contexto cultural, espiritual, enfim, a cosmovisão de cada um de nós, negros e indígenas ou segmentos oprimidos.
Por que agüentamos tanta violência subliminar? A intuição é a mensageira da alma, a intuição é a força do conhecimento tradicional, ancestral. A tocha da ancestralidade, inclusive genética, deve ser trabalhada dentro de cada um de nós, pois ela é riquíssima em conhecimentos, sejamos indígenas, negros, amarelos ou brancos. O nosso cérebro, fisicamente, guarda espaços e tradições jamais alcançados, é preciso lembrar/despertar da escuridão mental e espiritual e deixar fluir o inconsciente coletivo para que ele flutue nos mares da consciência, essa que dá a tônica da vida. É preciso uma força extraordinária para resgatar os conceitos e princípios da ancestralidade que cada um tem dentro de si. É ética. É princípio. É busca inclusive da paz que vai se somar à construção da corrente do amor e da ética. Mas, só a conscientização de quem somos nós, como povos indígenas, ou oriundo de outras raízes é que vamos perceber, desvelando a riqueza, a preciosidade que existe adormecida na vastidão das mentes, dos corações e dos espíritos. O homem – o homem masculino - que também tenha buscado esse homem selvagem, esse homem “primeiro”, ancestral dentro de si, é o verdadeiro homem que vai conquistar o coração de uma mulher, pois ele vai compreender e reconhecer profundamente a dualidade feminina, a guerreira e a mãe doce e pacífica que existem dentro de todas as mulheres. E a guerreira, a ancestral, a mãe selvagem, a filha, todas reunidas numa só, não vão mais permitir a sombra negativa que ronda o planeta Terra, a submissão, porta aberta para a violência, porque ela, a mulher, purificando sua persona, vai multiplicar muitas outras personas, começando pelo seu próprio filho homem, futuro cidadão, futura cidadania mundial, para construção da cultura da verdadeira paz e da igualdade social. E a relação de gênero neste estágio será bem melhor do que a do tempo contemporâneo, que nos faz sucumbir à dor, que nos leva ao desamor a nós mesmos e ao próximo. Nesse processo de reconstrução do ser humano vamos lapidando o grande diamante que é a consciência humana.
Homens e mulheres fortalecidos, que reconheceram mutuamente o processo de reconstrução da mente e espírito, podem apoiar a criatura interna, o verdadeiro anima, o profundo anseio da alma fortalecida pela ancestralidade que existe dentro de todos nós, a verdadeira ancestralidade do ser “primeiro” - a força interior - esses, sim, estarão construindo a grande força mental e espiritual, a grande FRENTE para a conquista dos Direitos Humanos neste planeta. E homens e mulheres estarão fortes para nunca mais permitirem a opressão, a baixa auto-estima, o conformismo, o racismo, a desvalorização de si mesmo e da verdadeira persona. E estaremos fortes e conscientes para lutar e exigir os nossos direitos civis. Por isso é importante ouvir os sábios e sábias indígenas e afrodescendentes e culturas afins. Mas o sistema político e social arrasta os velhos e as velhas para o corredor da morte lenta, desvalorizando-os, esquecendo-os. Os caminhos e as respostas para um novo mundo estão na aquisição e reconhecimento dos conhecimentos tradicionais das PRIMEIRAS NAÇÕES deste grande e luminoso asteróide azul contra o inimigo interno e externo.
É necessário fazermos uma reavaliação das histórias de vida de nossos velhos profetas, homens e mulheres, sejam eles de qualquer etnia, nação, religião, corrente espiritual dando uma NOVA INTERPRETAÇÃO às suas palavras. Não interpretações segundo crenças viciadas, costumes velhos, velhos modelos, velhos preconceitos, mas novos recomeços e profundas percepções das filosofias deles, para chegarmos aos verdadeiros caminhos para a construção dessa paz e ética.
Mas dentro da cultura indígena, como ocorre o processo de fortalecimento interior e a preservação da identidade cultural para a construção da paz e das relações humanas?
PAJELANÇA:
A MAIOR EXPRESSÃO NATA DE DEFESA DOS DIREITOS E DA PROPRIEDADE INTELECTUAL
INDÍGENAS
“Ser líder espiritual, em qualquer lugar, em quaisquer culturas e tradições significa estar conectado primeiro com o eu interior, a mulher/o homem selvagem dentro de si mesmo, como já dissemos, enfim sua intuição e todos os desdobramentos dela faz-nos remeter às nossas culturas e espiritualidades tradicionais, dentro da nossa casa espiritual e mental. Realmente é poder fazer com que seu cérebro e seu espírito relembrem os ensinamentos da ancestralidade, como no caso indígena, por exemplo, em que a herança espiritual é passada de pai/mãe para filho/filha. Nenhum pajé indígena faz curso pra ser pajé. O pajé -”ELE É” - e ponto final e NINGUÉM TIRA. O ser xamã não tem designação espacial. Ele pode ser do mar, da terra, da cidade, do campo, das montanhas. É evidente que os lugares mais tranqüilos, como a mata, por exemplo, são favoráveis à meditação e à expansão da alma. Quem é líder espiritual o é em qualquer circunstância. No caso indígena, pode haver vários filhos numa família, mas um ou dois somente terem mais qualificação para a espiritualidade. No entanto, todos os filhos terão a mesma educação, mas “aquele” se destacará por sua natureza iluminada, um grande reverente da cultura da paz e da ética. É intrínseco nele, já traz as lembranças adormecidas mais favoráveis ao despertar interior. Os outros irmãos precisam do exercício para recordar a herança espiritual. As práticas espirituais, as pajelanças de seus avós, pais ou tios na sua educação diária desde a tenra infância, vão funcionando como um elemento motivador, iluminador de sua trajetória espiritual. E seu fortalecimento só será complementado quando ele EXPANDIR a sua energia vital e espiritual - a sua consciência e inconsciência - direcionadas para sua comunidade, exercendo a cura em todos os sentidos. E os seus irmãos ou comunidade, aí sim, podem fortalecer a sua espiritualidade.
O eixo celular do significado espiritual dentro da casa física do pajé é o DAR-SE ao próximo. Sem o “dar-se” não há energia e tão pouco a cura, nem o Poder de realizar as cerimônias e o Poder do PRESSENTIR. E o pressentir é remetido para o doar-se. Como vê, é um ciclo... como é um ciclo a morte e a vida.... A vida e a morte... A morte e a vida... E o caminho espiritual do pajé é solitário, assim como o ato de nascer ou de morrer, ou o ato da criação da arte. É UM ATO SÓ NOSSO. O pajé, mesmo sem conhecimento científico urbano do que sejam direitos humanos, é um dos maiores defensores natos, na teoria e na prática, desses direitos, além de ser um curador. Ele é o verdadeiro conhecedor dos conhecimentos tradicionais e de sua biodiversidade: PATRIMÔNIO CULTURAL DE POVO, PROPRIEDADE INTELECTUAL DE SEU POVO.
III - Imposições Culturais aos Povos Indígenas
e
suas Consequências
MIGRAÇÃO E RACISMO
O processo de colonização e neocolonização dos povos Indígenas do Brasil levou-os ao trabalho semi-escravo, num regime de exploração causado pela intromissão de milhares de segmentos, tais como madeireiros, garimpeiros, latifundiários, mineradoras, caminhoneiros, empresários das hidroelétricas, rodovias, pistas de pouso etc...
Tal intromissão, conivente com políticas locais, com a falta de vontade política e com a omissão governamental, causou nas últimas décadas o desmatamento, o assoreamento dos rios, a poluição ambiental e a diminuição da biodiversidade local, entre outros estragos. As invasões trouxeram as enfermidades, a fome, o empobrecimento compulsório da população indígena. E, mais, as dificuldades locais levaram muitas pessoas à migração, a submeterem-se ao trabalho semi-escravo, às péssimas condições de moradias (favelas, casas de palafitas na periferia dos centros urbanos).
As invasões trouxeram também distúrbios mentais, como a loucura, o alcoolismo, o suicídio, a violência interpessoal, tudo isso afetando consideravelmente a auto-estima dos seres humanos indígenas. Podemos perceber claramente que todos esses sintomas são causados pelo racismo subliminar do poderio do Estado e reações discriminatórias subliminares, “sem a menor intenção…”, da sociedade brasileira, oriunda da miscigenação entre brancos e negros, entre índios e brancos ou entre negros e índios. O desejo de ascensão da população miscigenada e/ou branca é construído com base no racismo implícito e no processo de escravidão, semi-escravidão, exploração da mão-de-obra barata dos segmentos da sociedade mais oprimidos, como os miseráveis pobres e negros e a população indígena.
A colonização e a neocolonização, no entanto, são refletidas também por grupos de interesses religiosos que ao longo da História do Brasil vêm confundindo a cosmologia indígena com ideologias e fundamentos alheios à realidade tradicional. Impor culturas dominantes é uma forma de racismo. O paternalismo oficioso e governamental, o paternalismo eclesiástico também, todos são forma de racismo, por melhores que sejam as intenções, mas como diz um grande filósofo “de boas intenções está pavimentado o caminho do inferno”.
A demarcação das terras indígenas nunca foi uma prioridade governamental. Nunca se criou uma política que garantisse e respeitasse os povos indígenas como unidades sócio-políticos-culturais distintas. Nunca se cogitou de uma política voltada para os interesses e projetos, propostos pelos povos indígenas, de auto-sustentação econômica, baseados em sua biodiversidade com segurança para a saúde, educação, agricultura, trabalho, desenvolvimento e direitos humanos e reprodutivos.
Por todas essas razões, há muitas décadas, muitas lideranças têm sido sacrificadas por lutar por seus direitos. Os casos mais atuais referem-se ao assassinato de Marçal Tupã-Y, ao caso dos 14 índios Tikunas na década de 80, ao caso do assassinato dos 16 índios Yanomamis em 1993 e ao caso do índio Galdino, do Povo Pataxó queimado em Brasília um exemplo clássico de racismo urbano e violento, em 1997. Todos esses casos continuam impunes, com exceção do último. Ainda existem outros casos anônimos e casos abafados no presente e no passado de indígenas que lutam pelos seus direitos, por temerem represálias ou por estarem abalados moral e psicologicamente.
O Governo brasileiro tem protegido os interesses das mineradoras em territórios indígenas e protegido sempre os empresários e políticos locais.
Uma mulher indígena Potiguara me contou um dia: “Eu estava em casa sozinha, cozinhando, entrou um homem-peixe em minha casa e me tomou o espírito e foi-se embora. Nunca mais o vi, mas sempre ia à beira-mar esperar por ele”. Os dias se passaram, os meses, os anos... A mulher estava louca e velha. Havia passado toda uma vida e a velha esperava seu homem-peixe, desde que acontecera aquele incidente. A menina-moça estava em casa sozinha, entrou um colonizador local inescrupuloso nos anos 40, a violentou sexualmente e fugiu... O desastre à mente daquela criança foi tamanho que o universo cultural foi completamente confundido, tornando-a uma criança –mulher- velha maltrapilha e louca!!! Quantas histórias dessas teremos? Já pesquisamos as histórias das mulheres indígenas que migram para Manaus, Belém, Recife, Salvador, Porto Alegre, Rio de Janeiro? Minha própria família, violentada nos seus direitos humanos, migrou para o Rio de Janeiro e nas ruas permaneceu até conseguir moradia no baixo-meretrício próximo à estação ferroviária da Central do Brasil! Era o início do inferno que iria destruir e matar todas as mulheres dessa família. Mas se pode florir no meio do lixo quando se pode escrever um texto como esse!!!!!
Outro caso a que podemos nos referir trata de um chefe da nação macuxi (Jornal do Brasil/ 10/07/80) que nos conta sobre a situação das mulheres:
“Quando o branco chegou nas nossas terras, o índio pensava que branco era do lado de Deus, índio pensava que Deus tinha vindo visitar. De fato, branco tem tudo e índio não tem nada: branco tem arame farpado, nós não temos: branco tem livro, nós não temos: branco tem machado de ferro, nós não temos: branco tem carro, nós não temos: branco tem avião, nós não temos(...) Mas branco veio e roubou as nossas terras; e o índio não podia mais caçar. Falou que as terras boas eram dele, falou que os peixes dos rios e dos lagos eram dele. Depois trouxe doenças. E DEPOIS SE APROVEITOU DE NOSSAS MULHERES. E o índio se revoltou. Então o branco matou os nossos avós, matou, massacrou muito, e o índio fugia tão rápido como a coisa mais rápida. Então o índio entendeu que o Deus do branco era ruim”.
IV - Conclusão
MULHER INDIGENA:
MÃE, MULHER, PROFESSORA OU MILITANTE
Amilcar Cabral, na luta revolucionária na Guiné Bissau/África, há umas três décadas, enfocava que “a cultura deve ser utilizada como instrumento de libertação nacional”. Complementando o raciocínio, podemos dizer que a libertação do povo indígena passa radicalmente pela cultura, pela espiritualidade e pela cosmologia das mulheres. O papel da mulher na luta pela identidade é natural, espontâneo e indispensável. A mulher tem a função política de gerar o filho e educá-lo conforme as tradições, assim como na sociedade envolvente. Se criarmos um adolescente num ambiente de tráfico de drogas ele poderá vir a ser um marginal procurado pela polícia. Com relação à cultura indígena, a mulher é uma fonte de energias, é intuição, é a mulher selvagem não no sentido primitivo da palavra, mas selvagem como desprovida de vícios impostos pela sociedade, uma mulher sutil, uma mulher primeira, um espírito em harmonia, uma mulher intuitiva em evolução para sua sociedade e o bem-estar do planeta Terra. Essa mulher não está condicionada psicológica e historicamente a transmitir o espírito de competição e dominação segundo os moldes da sociedade contemporânea. O poder dela é outro. Seu poder é o conhecimento passado através dos séculos, e que está reprimido pela história. A mulher intuitivamente protege os seios e o ventre contra seu dominador, e busca forças nos antepassados e nos espíritos da natureza para a sobrevivência da família. Assim é a Educação Indígena. Todos esses aspectos foram mais preservados na mulher do que no homem.
E o movimento indígena brasileiro, que vem crescendo nos últimos 20 anos, hoje se constituiu em centenas de organizações locais ou nacionais que lutam pela interlocução com os governos, organizações que participam de fóruns nacionais e internacionais e constróem a importante Declaração Universal dos Direitos Indígenas nas Nações Unidas, além de ter conquistado um primeiro espaço dentro do Sistema da ONU, o Fórum Permanente para Povos Indígenas, onde nós tivemos uma importante participação.
Em resumo, o governo deve reconhecer, na prática, o fator pluricultural e diferenciado dos Povos Indígenas, incluindo os direitos relativos a gênero, direitos sexuais e reprodutivos das mulheres indígenas.
As terras indígenas devem ser definitivamente demarcadas como garantia à integridade física, social, cultural, econômica e psicológica dos povos indígenas e, em particular, das mulheres, das velhas, viúvas e mães solteiras.
Os invasores devem ser definitivamente retirados para garantir a sobrevivência e segurança das mulheres, das crianças e das velhas(os).
Os programas de desenvolvimento da mulher em instância nacional devem ser estendidos às mulheres indígenas, desde que a comunidade seja consultada e dentro do que espera e necessita esse povo. Urge um novo Estatuto do Índio formalizado pelos próprios povos indígenas.
Deve-se, também, especificar detalhadamente medidas emergenciais, ações
afirmativas, que defendam em rápido prazo os direitos das mães
solteiras, viúvas, mães anciãs contra a violência
doméstica e social e que se criem políticas públicas para
tal e que os direitos dos povos indígenas sejam garantidos realmente.
Na prática.
Eliane Potiguara
É
Fundadora e Diretora–Executiva do Grumin/Rede de Comunicação
Indígena sobre Gênero e Direitos, Professora, Socióloga,
Militante e Escritora Indígena Potiguara.