É possível re-aprender a
Sabedoria da Mãe, afagar a Terra,
transformar a realidade:
O Modelo de Comunicação
Cosmodinâmico e Multi-interativo e a questão do Diálogo
Evandro
Vieira Ouriques
In Memoriam de Gary Smith*1
“
There’s a monster living / under my bed / whispering in my ear / there’s
an angel with a hand on my head / She says I’ve got nothing to fear”.
E. Schrody, in Carlos Santana, Supernatural, Arista Records, Inc., 1999
O diálogo entre as civilizações só pode ser obtido se compreendemos a origem de toda a crise humana, que é o abandono da Mãe Natureza, por volta de 4000 a 3500 a. C2. Naquele momento a sociedade humana teve a pacífica maneira matrifocal na qual vivia destruída por hordas bárbaras de invasores que adoravam deuses guerreiros. Eles destronaram as antigas deusas, rebaixando-as à esposas, filhas e consortes e implantaram, assim, uma nova concepção de mundo dominada pelo princípio masculino.
Com isto a espécie humana desconectou-se de toda a polaridade feminina da Vida –ingenuidade, cooperação, pureza, receptividade, doçura, nutrição, criação contínua e inesperada, encantamento, etc.- que passou a ser ignorada e desqualificada. Ainda mais pelo seu aspecto ameaçador de ser a parideira de Tudo, da mais sublime a mais horrenda (em nosso julgamento) das situações. Ela, que é ao mesmo tempo bela, fértil, amorosa, nutriz, benevolente, generosa, selvagem, destrutiva, desordenada, caótica e mortal. Ela que é também a morte, insuportável em nossa cultura por ser a demonstração mais cabal da incapacidade humana de controlar a Vida, apesar de todo o seu apego ao que chama de matéria, pois ela nos toma novamente em seu útero incontrolável e nos dezfaz. Nos transforma –e a tudo- em mais Vida.
Não é à toa que a espécie humana valoriza a agressividade, com a qual tem pretendido inutilmente controlar a tudo e a todos. Basta ver o desastre que é o mundo hoje, quando a ONU, criada como o espaço do diálogo entre as nações e consequentemente entre suas civilizações, se vê obrigada a promulgar 2001 como o Ano Internacional pelo Diálogo entre as Civilizações. Exatamente o ano em que as Torres Gêmeas sumiram do mapa, o Pentágono foi duramente atacado e o pétreo Afeganistão bombardeado até às entranhas de suas montanhas de maneira a fazer as fontes dos rios secarem…
A dificuldade do ser humano em lidar com a ambiguidade da Mãe Natureza faz com ele esteja preso entre uma infância mutilada e uma adolescência que não passa, em um quadro traumatizado de personalidade psíquica e sócio-político-econômica que quer tudo a qualquer preço. A tal ponto que tem como sua “grande” teoria orientadora o neoliberalismo, tristemente ancorado em determinada Filosofia, Teoria da Cultura e Teoria da Comunicação3.
A Oxford University, através de sua editora, recentemente dicionarizou a palavra adultescent -mistura de adult com adolescent- que refere-se a pessoas de 30 ou 40 anos que têm adotado modas e atitudes adolescentes. Percebo, em minhas pesquisas, que isto ocorre em virtude do estar preso à mágoa resultante de um sentimento de traição que se julga a Mãe ter feito ao dizer não, ao estabelecer limites. Ao deixar claro que é hora de transformação.
A Mãe enquanto Hécate, Nêmesis e Kali4 ainda não foi bem compreendida pelo ser humano, a não ser na essência das tradições espirituais e na ciência de ponta contemporânea. O fato do Sol ser engolido pela Lua inconstante, todas as noites, e só então poder renascer -o mistério da entrega à Mãe Divina- ainda é muito difícil para o ser humano. É compreensível. Como é o fundamento do diálogo, da comunicação, esta é a razão da tragédia humana.
A MEIGA NATUREZA LATENTE DOS SERES HUMANOS
Em uma das conversas5 que Sua Santidade, o Dalai Lama, teve com Howard C. Cutler sobre a questão da natureza humana (se somos inerentemente egoístas e se a agressividade e hostilidade fazem parte da natureza humana essencial6, e da própria Vida) ele nos oferece observar o nascimento de um bebê:
“Pela simples observação de um bebê saudável, seria difícil negar a meiga natureza latente dos seres humanos. E, a partir dessa nova perspectiva, poderíamos defender com sucesso a hipótese de ser inata a capacidade de dar prazer ao outro. (…) O bebê nasce com a capacidade inata de dar prazer à mãe(…)”7. E a mãe tem o prazer de dar o prazer do alimento de todos os níveis a sua criança. É exatamente esta presença de consciência pura e desinteressada –amor incondicional- que faz das crianças fontes de interesse total para as pessoas, que simplesmente param tudo diante do súbito re-encantamento de suas vidas. Uma vez minha querida filha Úrsula Mey me disse: “Papai, eu te amo todo dia”.
Quando o amor como fundamento da Vida e consequentemente do social, se torna evidência científica, a recusa à organização do mundo tendo-o como a fonte de referência para a decisão, gera a patética situação atual. Humberto R. Maturana, biólogo chileno extraordinário, já disse que quando se fala de amor, e eu lembro desta meiga natureza, que nos re-ensina Dalai Lama, quem nos escuta se inquieta.
Sem dúvida esta é uma questão delicada. Vamos então por partes, um bom uso do princípio masculino, de sua capacidade de separar para entender. Maturana demonstrou que “os sistemas vivos podem interagir uns com os outros recorrentemente. Se o fazem, suas derivas estruturais ontogênicas, isto é, os trajetos seguidos por suas contínuas mudanças estruturais, seguem trajetos contingentes com suas interações recorrentes, e suas ontogenias se tornam co-ontogenias ou derivas estruturais co-ontogênicas. Em decorrência disto, um observador pode ver coordenações de ações que, se forem coordenações recorrentes de ações sobre coordenações de ações, se tornam linguagem”8.
E diz mais. A linguagem é ao mesmo tempo fenômeno social pois “a socialização decorre da recorrência de interações que resultam num viver juntos em uma deriva estrutural co-ontogênica, e a linguagem é uma maneira de vivermos juntos”.9
Afirmo então, por verificação, com muitos, que interagimos recorrentemente sob restrições circunstanciais, ou seja pressões externas, sem qualquer planejamento intencional visando a obter alguma coisa. Ou seja, a intenção maior que nos atravessa e movimenta é a da espontaneidade de um por-de-sol. Da pureza de um animal que se alimenta sem julgar o seu ato, sem se considerar superior ou mais esperto. Sem corromper ou humilhar. Simplesmente fazendo o que foi feito para fazer. Como uma borboleta voando. Como a lagarta que dissolve toda a sua estrutura biológica em uma massa homogênea que só então começa a se re-organizar em borboleta. A espontaneidade de nossos filhos rindo, puramente. Da seriedade descompromissada das órbitas dos planetas, dançando no cosmos. Não há razão alguma para tudo isto, apenas o incomensurável e infinito prazer de fazê-lo. De ir “ao sabor do vento e da coisa”. De viver, porque assim a vida é.
“A recorrência de interações na espontaneidade do prazer, sem justificativas, é o fenômeno da socialização. (…) os fenônemos sociais são fenômenos de coexistência que ocorrem quando os sistemas vivos interagem de forma recorrente uns com os outros no fluir de seu viver, apenas porque isso lhes acontece na sua conservação da organização e da adaptação. Além disso, afirmo que essa espontaneidade da recorrência de interações entre os sistemas vivos é expressão de sua congruência estrutural em suas circunstâncias: dois ou mais sistemas vivos começam a interagir recorrentemente uns com os outros porque eles espontaneamente se encaixam nas dimensões dos domínios nos quais suas interações ocorrem.”10
O AMOR É A CONDIÇÃO DINÂMICA E ESPONTÂNEA
DE ACEITAÇÃO
Este é o fenômeno a que chamamos amor: o encaixe dinâmico, espontâneo e recíproco que possibilita as interações recorrentes, a formação da unidade, da adaptação recíproca ao longo da história ontogênica dos sistemas vivos.
É assim que o amor é a condição verdadeira e desinteressada da interconexão, de diálogo, que nada tem a ver com a informática da dominação11. O amor é outra coisa que a dominação. É a entrega com coração. É a não-interpretação, como veremos logo adiante, do que está acontecendo. Quando interpretamos nos separamos do ato, tornando-o objeto. Sentimos como dominando o ato. Manipulando-o. É exatamente pelo fato do amor ser espontâneo, incontrolável, que se tenta sistematicamente desconstruí-lo em nossa sociedade –e grande parcela da Teoria da Comunicação e da Cultura, bem como da Filosofia e das Ciências Humanas fornece estes “fundamentos”, como já disse- e substituí-lo por relações de consumo na qual um é o shopping do outro, do qual um tira do outro o que pensa querer, neste saque interpessoal e contínuo, chamado de competição. Onde se rouba de tudo, todo o tempo, inclusive idéias, nesta economia globalizada de saque. Este sado-masoquismo psíquico-político-econômico explicitado na mídia de todo o mundo e que quer convencer a todos que a Vida seria isto.
O amor é atacado primeiro porque não há ego que resista a ele. Como disse Khalil Gibran Khalil, ele sacode as ramos mais tenros do alto de sua copa e as raízes mais profundas de sua base. Amor é transformação, pois ele, sim, traz o surpreendente, a felicidade, o verdadeiramente novo, e não este opium contemporâneo que é o desejo pelo desejo; a sociedade drogada como máquina desejante a quem está vedada o direito de ter prazer realmente: como escravos sexuais, que só podem gozar/comprar quando o escravizador pinga migalhas de prazer, enquanto fora das câmaras explicitamente de tortura, as multidões praticam na câmara pública e globalizada, com fervor de uma religião invertida, a filosofia do “desprezar para ser valorizado”, afirmando que “ser bonzinho é ser otário”.
“O amor é a condição dinâmica espontânea de aceitação, por um sistema vivo, de sua coexistência com outro (ou outros) sistema(s) vivo(s), e [é](…) um fenômeno biológico que não requer justificação: o amor é um encaixe dinâmico recíproco espontâneo, um acontecimento que acontece ou não acontece. (…) o amor é o fundamento do fenômeno social e não uma consequência dele, e (…) os fenômenos sociais, em um domínio qualquer de interações, duram somente enquanto o amor persistir nesse domínio”.12
Ao vermos uma corça ser devorada por um leão nós atribuímos a este ato qualidades de agressividade, submissão, fraqueza, força bruta, destruição, esperteza, dominação. Não é à toa que um famoso bandido carioca, em meio a uma grave rebelião em presídio de segurança máxima, regojizou-se, ao assumir o controle naquele momento, afirmando que “Tá tudo dominado”.
Em verdade não há nada neste ato da corça e do leão. Apenas o ato. O ato em si, pois o que vai fazer um leão? O que vai fazer uma corça? O julgamento que fazemos deste ato é uma construção mental. O leão não é agressivo. Ele é do jeito que foi feito, ele está sendo o que ele é para ser. Ele não está “se dando bem”…, pois em seu ato não há malícia.
Não há o que se julgar pelo parâmetro humano, pois são as coisas como elas são, como elas foram criadas para ser em um processo que a nossa ciência afirma ter pelo menos 14, 15 bilhões de anos e no qual nós aparecemos apenas há 80 mil. O que faz a diferença entre o ato do leão e da corça e os bárbaros atos humanos que legitimamos a partir desta suposta “agressividade e competição”, é, em verdade, a motivação de cada um deles. A motivação da Natureza pode ser compreendida através do mais fundamental preceito moral do Yoga que, como toda espiritualidade autêntica, é uma ética universal13, que fala, que ensina, que possibilita o exercício dos valores que todas as pessoas e organizações do mundo empenhadas hoje na paz e na justiça defendem. Mesmo inconscientes de que estes valores considerados hoje progressistas, como bem expressa o Forum Mundial Social, são os valores mais antigos do pensamento humano, expressos, como os fundamentos próprios do humano, pelas tradições espirituais da Humanidade. Isto em uma época em que todos os saberes eram um só, sabedoria ancestral, reunindo a Filosofia, a Ciência, a Religião e a Arte.
Estamos falando de ahimsa, a raiz de todas as outras normas morais. E ahimsa, a não-violência, pode ser melhor compreendida pela mente ocidental se lembrarmos que a epopéia do Mahabharata, uma das escrituras chaves do hinduísmo, emprega um sinônimo dela, anrishamsya, que quer dizer “falta de malícia”. Exatamente a malícia criminosamente construída e legitimada -pela pedagogia familiar, escolar, mediática e social da globalização- como a prova de entrada de uma pessoa na vida adulta. A malícia que está sendo levada hoje aceleradamente para as crianças, através de uma erotização pervertidamente pedagogizada e precoce, depois de já a ter impregnado nos adolescentes14. Como resultado temos uma espécie auto-referente, a tal ponto, que pensa, pasmem, que inventou a Vida e que a sua história começou na Grécia, ontem. O compromisso da Filosofia com a Grécia me parece aquela atitude tipicamente da adolescência ocidental que é levada a achar que a história começa com a sua geração e que tudo que aconteceu antes é desprezível, algo a ser superado na vertigem da novidade. Realmente assim é muito difícil haver diálogo entre as civilizações.
O ser humano precisa reaprender primeiro a se localizar no espaço e no tempo. É um processo complexo, mas mais rápido do que se pensa e muito estimulante, divertido e útil. Refiro-me ao método terapêutico e pedagógico que sistematizei e com o qual trabalho –aplicando-o em pessoas, organizações, mídia e coletividades-, em verdade uma re-leitura pessoal das tradições espirituais e de uma certa ciência, fundamentado no Modelo Cosmodinâmico e Multi-Interativo de Comunicação e Cultura que estabeleci em minha tese de doutorado. O meu objetivo foi elaborar um Modelo no qual a vivência cosmológica (presente nos pré-socráticos e em toda a filosofia oriental) incorpora a investigação ontológica15 e, por isto, nele, o ser humano deixa de ser fonte –a Fonte é o Ser- para ser canal.16
O COMPROMISSO ENTRE ATO E PALAVRA
Ao optar por esta independência ilusória da totalidade, o antropocentrismo precisou, por exemplo, desconectar a palavra das coisas. A palavra do ato. Ou seja, separar a operação intelectiva da própria vida.
É por isto que o mais comum hoje é que as pessoas, as empresas, as instituições, os governos e as civilizações falem o que não fazem, afirmem o que não é, e descumpram o combinado. Isto é ainda mais preocupante quando parte de quem está na posição de se dedicar a altos propósitos públicos e humanitários. Falam uma coisa enquanto por trás maquinam, intrigam e procuram manipular as pessoas e as situações no sentido de seus egos auto-referentes, procurando o poder, pois crêem que ele lhes trará felicidade. Hoje, em verdade, isto é o mais comum.
Ou como compreender o fato de que o então presidente do Senado Federal Antonio Carlos Magalhães, diante das comprovadas denúncias de corrupção, tenha renunciado ao cargo com um discurso plagiado de um discurso do deputado constituinte Afonso Arinos17?
Há uma ruptura esquizofrênica entre a palavra e o ato. É interessante perceber que foi somente no séc. XVII que a linguagem passou a ser este sistema arbitrário que conhecemos. Com a instalação da ciência cartesiana-mecanicista, o paradigma Ocidente separou a palavra da experiência, aprofundando a separatividade na qual o ser humano veio investindo desde o abandono da organização matrifocal, a que me referi, exatamente quando começou a se ver como distinto da Natureza. É assim que a língua aparece como algo arbitrário, cujo significado se esgota nela mesmo.
Esta maneira de lidar com a palavra é muito diferente, no entanto, de todas as línguas-mães, como o sânscrito e o árabe, por exemplo, nas quais aquilo de que se fala está presente: o signo então é aí completo, ele nos remete à sua própria e indissociável simbologia. Falar é, neste contexto sagrado, sublime para alguns, produzir união. Ou seja, o que é dito carrega em si o seu próprio símbolo, que é a coisa em si; o que se diz carrega a súmbola, a parte central da verga (a peça que cruza num mastro grego) que, dividida em duas seções, era ligada (sumbállein) por correias nesta altura.
Os gregos chamavam symbolon aos signos secretos graças aos quais os iniciados nos cultos dos mistérios se reconheciam entre eles. René Alleau, filósofo e historiador das ciências, mostra que o sentido concreto, natural e dinâmico de símbolo é o de evocar um movimento que junta, que re-une elementos anteriormente separados.
Este é o caso das suratas islâmicas e do OM, o mantra-síntese de toda a Vida, de acordo com o hinduísmo. Se no Bhagavad Gita, Krishna diz: “Entre os sons, Eu sou o OM”, certa vez o Imam Ja’far afirmou que não cessaria de repetir determinada surata “até que a ouvisse na voz do mesmo anjo que a havia pronunciado ao Profeta”. Ou seja, ele não cessaria de repetir as palavras até que elas não fossem mais ditas por ele mesmo –ego auto-referente- mas sim pela Totalidade, pelo Self, pelo atman, pelo Incondicionado e Eterno. Pelo Imanifesto.
Isto é muito importante, pois nossa sociedade, do mais cruel capitalista até certos meios progressistas e espiritualistas, se funda na valorização do que chamam de “coisas concretas”, de “coisas práticas”. Este é discurso do sistema dominante, sabemos muito bem, ao passo que não há mais concreto do que é chamado de abstrato, pois são as idéias que movem o mundo, que fazem tudo acontecer na dimensão humana. É a consciência que cria o que chamamos de realidade material, que nada mais é, no entanto, do que apenas um grau de densificação maior do que já estava definido no campo sutil, como um rafe de design está para a página impressa.
Ver este apelo para “coisas práticas e concretas” na boca de quem se diz estar trabalhando pela superação do sistema de pensamento dominante é realmente assustador. Bush, por exemplo, ao romper com o Protocolo de Kyoto, disse que era por “razões práticas”, já que afetaria a economia dos EUA. Quando pessoas que se dizem progressistas, de “paz”, afirmam que o pensamento é “bla’, blá, blá” e que o que interessa são “coisas concretas”, podemos entender porque o mundo ainda está do jeito que está. Daí nascem as atitudes “produtivistas”, “tarefeiras”, “marketeiras”, quando o que se faz não está conectado com o amor e é apenas o produto frankesteiniano da hibridização de “executivos pragmáticos” com “progressistas empreendedores”.
A PEDRA DE TOQUE DO DIÁLOGO
Aí está a pedra de toque do diálogo entre as civilizações. Se estudarmos as tradições espirituais que fundam todas as civilizações veremos sempre o amor como o centro de tudo. Isto é o que nos falam (no sentido da palavra compromissada com o ato) as tradições espirituais18. Na tradição hinduísta, a origem de tudo é Brahman. Ele é da ordem do Silêncio. Dele nasceu a trimurti, a tríade (por sinal, a trindade aparece em praticamente todas as tradições) de deuses supremos: Brahma, o criador, que nasce da flor de lótus que, por sua vez, nasce do umbigo de Vishnu, o mantenedor; e Shiva, Deus da Consciência, que tudo transforma ao final de cada ciclo.
Pois bem, Vishnu é aquele que sustenta tudo pela força do amor. Afirma-se que Deus é amor. E que um corpo guiado pelo amor é um corpo vestido com uma alma, ao passo que aqueles que não têm alma também não têm um corpo, mas apenas ossos cobertos por pele.
Para o Zoroastrismo, a mais antiga religião monoteísta do mundo, surgida na Pérsia no ano 2000 a.C., o objetivo central do homem é manter-se seguro no amor, afastando os pensamentos da violência. O Taoísmo diz que a gentileza cria amor. No Jainismo, é o amor o centro organizador da conduta pública dos indivíduos. Para o Budismo o Pensamento Correto está embebido de amor. Confúcio disse que o sangue da vida é o amor e que a virtude é o seu esqueleto. Para o Cristianismo e o Judaísmo, o amor é de Deus. E todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece Deus. No Islamismo, o Profeta Sagrado Maomé disse que o devoto não entrará no Paraíso até que ele tenha fé e que esta fé não estará completa até que ele ame o outro. E o Sikhismo afirma que no amor está a glória de 1.000 tronos.
Como se vê nas maiores tradições espirituais do mundo encontramos a mesma constatação da sabedoria ancestral, da xamânica e neo-xamânica, da tradição indígena: o universo como o amor. Como a mais alta, e por isto verdadeira, consciência.
A globalização do capitalismo, que o brasileiro Profeta Gentileza preferia chamar de “capetalismo” quer que o amor seja uma consequência da socialização, uma construção mental –um construto- e não a sua única e exclusiva fonte. Se a nossa origem antropológica como Homo Sapiens “não se deu através da competição, mas sim através da cooperação, e a cooperação só se pode dar como uma atividade espontânea através da aceitação mútua, isto é, através do amor”19, como optarmos pela competição? Como podemos então falar em competição cooperativa? Só mesmo acreditando que a dor pode causar prazer. Muito longe do estado de equanimidade que fundamenta, por exemplo, o budismo, quando fala do estado para além da Roda de Sansarra, para além da dualidade. O hoje da maioria da Humanidade ainda é, ao contrário, a sedução dominado-masoquista/dominador-sádico.
A ÚNICA SAÍDA DA CRISE
Como disse Heidegger, esquecemos que esquecemos do Ser. Que esquecemos da
totalidade. De que a cultura humana é parte de um processo muitíssimo
mais antigo do que nós mesmos.
O inquestionável calendário cósmico de Carl Sagan, no
qual ele compactou em 24 horas tudo o que aconteceu desde o Big-Bang, o início
do Tudo de acordo com uma das mais teorias aceitas pela comunidade científica
internacional, o ser humano apareceu no último segundo do último
minuto da última hora. Repito, de outra forma: às 23h59m59s.
No mínimo precisamos rever, como tantos estão fazendo, o fundamento da espécie inteira, não de uma civilização ou de várias em choque, mas de uma espécie que age como sendo independente do que, ou, se preferirem, de quem, a pariu. De quem a deu à Luz.
Esta é a única saída da crise: o respeito pelo Princípio Feminino. Somente através dele que podemos retornar ao lugar de onde nunca saímos: a unidade. Que vivemos –como condição dada- quando temos a consciência do que significa a vivência real de existir algo que nos criou, aquilo que é. Que criou nossos corpos com as células eucariontes que existem na Mãe Terra desde dois a dois bilhões e meio de anos…
E que, inclusive, nos criou com a capacidade, porque quis, de ter e desenvolver criatividade. Esta é uma questão também muito delicada. Pois quando se fala em criatividade fala-se em liberdade. O valor fundamental para o ser humano que “coincidentemente” fundamenta o neo-liberalismo com sua “defesa” da liberdade irrestrita de mercado. A eliminação de subsídios, por exemplo, neste sentido, seria básica pois igualaria “competidores”, abrindo o tal do mercado. No entanto, como sabemos, o mesmo centro irradiador desta idéia mantém a política exatamente inversa –dando subsídios a rodo- quando se trata de seus “próprios interesses”. Ou seja, defende-se a liberdade irrestrita, desligando-se da conexão original, como se tirássemos a tomada de nosso computador da parede e quiséssemos então, loucamente, entrar na rede. Com esta desconexão, no mínimo preocupante, afirma-se a chamada “morte de Deus”, o que possibilita um ameaçador reforço do ego-auto-referente, que vive da garantia de realização sempre ilusória (por isto a felicidade está no futuro) de seus desejos.
No entanto, a liberdade não é o tudo em si mesmo, na medida em que ela foi criada como mais uma dimensão, decisiva é claro, da Vida. Queremos liberdade para realizar os atos que acreditamos sermos a nossa felicidade. O que é decisivo, então, é a consciência que temos, pois é ela que informará os atos. O resultado da criatividade é diretamente proporcional à fonte de referência que a direciona.
É por isto que é necessário o equilíbrio entre os aspectos Shiva e Shakti em nós mesmos, que somos eles, que somos unos nele. A Ciência do Caos nos re-ensina o princípio de auto-semelhança: a noz e cérebro, somos todos e tudo um só. De acordo com a Física, uma só energia universal. Equilíbrio Dinâmico entre Pai e Mãe; entre Céu e Terra; entre Princípio Feminino e Princípio Masculino. Exercer a criatividade sim, e voltaremos a isso, mas com responsabilidade, com Ética, na Verdade. “Delivering the right information”20. É por isto que a superação da dor da Humanidade -como exemplo emblemático para o modo de consciência chamado Ocidente, o conflito no Oriente Médio- depende de nosso empenho em recuperarmos esta Unidade Sagrada21.
É disto que vozes minoritárias em todos os saberes sempre falaram no Ocidente. Mas apenas com a instalação da crise, a partir do final do século XIX, estas vozes passaram a ser mais e mais ouvidas. Hoje passamos do limite. Dez anos após a ECO-92 todas as avaliações feitas dos compromissos então firmados em relação ao desenvolvimento auto-sustentável não são animadores22. A inconsciência de uma grande parte da Humanidade, lamentavelmente, já perdeu a aposta que fez. Se abandonamos nossa Mãe Maior, como não brigarmos -até a morte- com nossos irmãos?
Para que este quadro seja revertido, precisamos nos abrir ao grande e diversificado conjunto transdisciplinar de evidências científicas que apontam a necessidade do estabelecimento do estado de comunicação efetiva, comunhão -como venho chamando inspirando com uma corrente de pessoas- precisamos utilizar todas as tecnologias espirituais23 disponíveis.
Como mostra Pierre Weil, “toda a história da humanidade posterior (à) queda na fantasia da separatividade consiste em uma luta silenciosa entre duas forças: as do desejo ligado a este fantasma que leva à Neurose do Paraíso Perdido e a da nostalgia inconsciente do estado de Sabedoria primordial da Consciência Cósmica não-dual. Todos os esforços dos grandes mestres de Israel e da Humanidade, de Moisés a Cristo, passando por Salomão, os Profetas, os Essênios, e os Terapeutas descritos por Philon de Alexandria, dos Rishis do Ganges aos Budas do Tibet, das Escolas da Tradição a Krishnamurti, Sri Aurobindo, Teilhard de Chardin, René Guénon, Gurdjieff, entre outros, assim como a psicoterapia em suas linhas mais avançadas como as de Jung, Maslow e Assagioli, destinam-se a restabelecer no homem a vivência da inseparabilidade da Consciência Cósmica”24.
Prosseguindo com Weil, “Freud, ao mostrar a existência de um inconsciente,
no qual se encontram reprimidas certas pulsões instintivas fundamentais,
abriu a porta para uma melhor compreensão daquilo que foi reprimido
na história da humanidade. Como ele próprio diz “...a gênese
das neuroses nos aparece sob a seguinte fórmula simples: o “ego” tentou
abafar certas partes do “id” de uma maneira imprópria, ele
malogrou e o “id” se vinga (...) sob a forma da reação
patológica; é exatamente isso que Maslow nos demonstra. Neste
caso, a fonte do maior sofrimento da humanidade é a repressão
de tudo aquilo que estes valores intrínsecos representam: a Árvore
da Vida...”25, ou seja, a sabedoria primordial.
ENTENDER A PROFANAÇÃO DO MUNDO É
RESPEITAR A MÃE
A subjugação da Natureza, a morte do corpo da Vida, com a desvalorização da sabedoria ancestral, é a face externa do esforço interno de esquecer o Ser, deslocando o eixo de unificação psicológica para o ego, este amigo quando nos dá a nossa especificidade, individualidade, e que se torna então nossa sombra com sua auto-referência. Para justificar isto, o aspecto feminino da divindade é relegado a uma posição inferior nas religiões. Nas histórias babilônicas sobre a criação, por exemplo, a deusa primordial Tiamat era o vazio sem forma, o útero negro e profundo de onde nasceu o universo; por si mesma, ela deu nascimento ao mundo. O deus Marduk foi, originalmente, seu filho. Mas depois tornou-se o deus criador, matando Tiamat, que passara a ser representada como o dragão (vejam bem) do caos. Marduk esmagou-lhe o crânio (a inteligência do feminino), dividiu seu corpo como se fosse uma ostra, e os ventos, a ele obedientes, varreram-lhe o sangue. Mas só dividindo-a em duas que ele conseguiu criar o firmamento do Céu e o alicerce da Terra26.
Esta mesma dependência em relação aquela que se quer subjugada está na tradição cristã, quando o Gênesis mostra que Deus, como Marduk, precisou da mãe primordial para dividí-la e criar o cosmos, separando a luz das trevas, o dia da noite, as águas superiores das inferiores, os céus da terra e a terra seca dos mares. E mesmo quando Ele se voltou para a criação das plantas, dos animais terrestres e das águas, criaturas do mar e pássaros, ele precisou dela que então, por sua ordem, os criou.
A criação é, assim, no panteão masculino, uma atividade semelhante a da comunicação moderna, quando não temos contato direto com a realidade, que nos chega mediada pelos meios de comunicação, especialmente hoje, com as novas tecnologias da informação. Em terminologia teológica, este não é um modo direto, mas “mediato” de criação.
Muitos passos foram dados época após época na história dos modos de consciência humana. Mais recentemente, a reforma protestante no século XVI, com a supressão do culto à Virgem e a dessacralização do mundo natural foi decisiva neste processo. O homem passou ali a ser o único ser racional consciente em um mundo inanimado, a fonte de todas as deusas e deuses. O humanismo tornava-se uma religião. A negação do sagrado acabou por voltar-se contra o próprio homem. Porque apenas ele seria sagrado? Ele é apenas uma espécie a mais. A pretensa sacralidade da tecnologia arraigou-se na revolução científica do século XVII, germinada do fermento da Renascença e da Reforma: foi a destruição das restrições tradicionais ao conhecimento e o poder humanos. Ao saquear, violar, massacrar, infectar, escravizar, desalojar e destruir cultural e espiritualmente as populações do hoje México, Cortez, em carta ao rei da Espanha, que o pagou para esta missão, disse que seus companheiros não “estavam muito contentes com [as novas regras impostas pela Espanha] em particular com aquelas que os obrigavam criar raízes na terra; pois todos eles, ou a maioria deles, pretendiam lidar com essas terras como tinham feito com as primeiras ilhas que povoaram, a saber, exaurí-las, destruí-las e depois abandoná-las”. Qualquer semelhança com o que se faz com as mulheres...
No século XVII a natureza morreu culturalmente tornando-se nada mais do que matéria inanimada em movimento: um sistema mecânico e controlado de maneira sempre igual, vale dizer sem surpresas, não mais pela Mãe, mas pelo Pai, Deus, agora no papel de engenheiro todo-poderoso. Como a natureza “funcionava” mecanicamente, aos poucos a própria figura de Deus se tornou desnecessária para a natureza, e no final do século XVIII ele desapareceu da visão científica do mundo, abrindo caminho à aceleração do ateísmo, que se desenvolvia aceleradamente.
Foi através destas operações paulatinas no campo simbólico que Mammon, o demônio da ganância comercial no Novo Testamento, passou a dominar o mundo que estava, então, profanado. É uma corrida movida pela força. Recordo-me que nos anos 70, no Rio de Janeiro, o famoso homeopata Dr. Bello distribuía um cartão em formato de coração, bordas e letras em vermelho dizendo: “Tudo é força mas só Deus é poder”. Levei anos para compreender isto. É compreensível a confusão entre força e poder...
Neste processo de incorporação do conceito de que a natureza não é viva, é muito importante o papel desempenhado por Francis Bacon, no início do século XVII, que foi advogado por instrução e profissão, o que o capacitou a ser Lord Chancellor –quem preside a Câmara dos Lordes- a maior autoridade da Inglaterra. Bacon estava consciente das proibições existentes em sua época em relação à ambição desmedida e ao medo, culpa e sentido de mal tradicionalmente associados a este desejo de poder ilimitado sobre o universo. Foi exatamente ele quem desatanizou esta atitude. Fez isto através de um argumento simples: o domínio sobre a natureza estava garantido na Bíblia, quando Deus deu a Adão o poder de nomear as criaturas, o que foi feito antes do nascimento de Eva. Assim Bacon fez parecer que o domínio tecnológico da natureza era apenas a recuperação de um poder já dado por Deus e não algo novo, produto da ciência.
Ao mesmo tempo, Bacon elaborou o argumento -Sheldrake chega a sugerir que
talvez ele tenha feito isto apenas como um sagaz argumento de advogado- de
que o conhecimento inocente da natureza -a atividade da ciência, que
assim estaria além do bem e do mal- nada tem a ver com o conhecimento
moral da vida, que é assunto para, nas palavras de Bacon, ser “exercido
pela sadia razão e pela verdadeira religião”. Para ele
a ciência era “masculina por nascimento” e dela emergeria “uma
raça abençoada de heróis e superhomens”27.
Este foi o ideal nazista e hoje é o ideal apregoado, paradoxalmente
sem qualquer censura e ao mesmo tempo em que o terrorismo e o nazismo continuam
a ser denunciados e perseguidos- pela bioengenharia a serviço da mentalidade
reinante.
Entre os membros da Royal Society inglesa, a nata científica de então, Robert Boyle censurou severamente “a veneração que os homens habitualmente têm em relação aquilo que chamam de natureza”, pois isto “obstruiu e limitou o império do homem sobre as criaturas inferiores”. Ele propôs que “em vez de se usar a palavra natureza, que se tomava por uma deusa ou por uma espécie de semidivindade, nós a rejeitássemos de todo”28.
É Sheldrake quem esclarece mais: “Em retrospecto, podemos ver que ele [Bacon] estava errado. Pense, por exemplo, na atual devastação da floresta amazônica, que se tornou possível graças à tecnologia e à fé baconiana no direito do homem dominar a natureza. Uma sadia razão e uma verdadeira religião não estão hoje em evidência em lugar algum, e nada poderia hoje estar mais distante de nós do que o inocente exercício do direito, concedido ao homem por deus, de dar nomes às criaturas. Espécies incontáveis dessas criaturas estão sendo exterminadas, espécies que não chegam sequer a receber um nome, e que desaparecem desconhecidas.”
Sheldrake cita a exploração do velho Oeste americano como a aplicação exemplar deste modelo. Na década de 1860, com as estradas de ferro, precisou-se de carne e couro e os búfalos começaram a ser abatidos, até mesmo por mero “prazer”. Para se ter uma idéia, apenas em dois anos, de 1872 a 1874, foram caçados mais de três milhões de búfalos. Em 1880, ou seja, seis anos após, não existiam mais búfalos, a não ser cerca de mil em reservas no final do século, que no início, pelos próprios cálculos mecanicistas, deveriam ser de trinta a quarenta milhões. Mas os índios não sofreram menos, como sabemos. Os índios das planícies foram os últimos a serem exterminados, sob o comando do general William Tecumseh Sherman, que na mesma década de 1860 traçou o seguinte plano em carta ao irmão: “Quanto mais pudermos matar neste ano, menos terão que ser mortos na próxima guerra, porque quanto mais desses índios eu vejo, mais convencido fico de que todos têm que ser mortos ou mantidos como uma espécie de indigentes. Seus atentados à civilização são simplesmente ridículos”.
MOTIVOS PARA MUDAR
Agora temos uma visão clara e rápida do movimento geral de como a Mãe Natureza foi profanada. Aí está a origem e a história do enraizamento desta concepção de mundo, desta filosofia, que para começar o seu discurso de império já se anuncia desqualificando também a filosofia, ao não se reconhecer como uma. Intitula-se a verdade, para além de qualquer filosofia. “Somos práticos e fazemos coisas concretas”, como se estas dimensões não fossem apenas, como se disse, níveis de maior densificação secundária de um modo de consciência que lhes dá origem (Brahma), mantém (Vishnu) e transforma (Shiva).
Este anúncio se faz, claro, através e em toda a rede de meios humanos de comunicação, sob a maestria da publicidade. Toda a impregnação informacional –imprint como falava Timothy Leary- que a humanidade recebe “garante” que a competição e o lucro são a verdade. Que nada mais existe além disso. E isto é feito, retornando a este aspecto, atribuindo à mentalidade e aos seus produtos e serviços exatamente os valores sublimes da Mãe, valores realmente universais da Mãe Natureza, da Unidade Sagrada, da totalidade: paz, amor, proteção, segurança, carinho, respeito, êxtase, transformação, entrega. E ao mesmo tempo dizem “tire vantagem”, você é melhor do que o outro”, se você não fizer o outro vai fazer”, “não fique ficar para trás”, e por aí.
Se continuamos a necessitar destes valores universais, e por isto profundos, não é melhor que os procuremos na sua verdadeira fonte? Na fonte onde encontramos a tecnologia psicoespiritual? Que não é o “Deus claudicante” da ciência, apoiado na razão e com falta de sabedoria, mas o solo fértil da maturação psicoespiritual, dos estados extraordinários de consciência e da própria condição suprema da realização do Si Mesmo, como diz Feuerstein. Nas tradições espirituais da Humanidade e em uma certa ciência verdadeira, sensível a elas. Esta é a fonte.
A VOZ INDÍGENA
Por isto a situação sócio-histórica indígena e a contribuição de sua cultura para a Humanidade têm um lugar determinante, porque escutar a voz indígena -que clama em todo o mundo por respeito, de maneira dramática- é escutar a voz indígena, a voz ancestral, que está dentro de cada um de nós mesmos. Esta voz que nos fala do fundo de nossa consciência. Do fundo de nossa mente e de nosso coração, a respeito de nossa origem. Que nos identifica como uma só família -irmãos e irmãs. Partes da Totalidade. Que nos ensina as medicinas de todos os corpos –físico, emocional, mental, espiritual. Civilizações em diálogo.
Como vimos, hoje esta consciência está quase esquecida, pois é uma outra lógica de “irmandade”, a Big Brother, que articula os interesses, as pessoas, as nações e a globalização neo-liberal. O grande coral de (des)afinados na unidimensionalidade do desespero e da ignorância do individualismo competitivo e destrutivo. Motivados pela vã esperança e pela ardilosa ilusão do poder.
Pois, em verdade, quando, em ato de fé e de pura lógica, mergulhamos no encontro do que leva os vários nomes de Deus, do Silêncio, da Mutação e da Energia Universal, re-encontramos necessariamente nossos irmãos e irmãs indígenas em sua consciência de que a Natureza é viva29.
Desde as mais elaboradas cosmovisões as mais modestas práticas telúricas, já no neolítico e mesmo no paleolítico30, encontramos sempre a mesma intuição central em relação à Mãe, que se repete como tema condutor: ela é a matriz. Ela é. A “Senhora do Lugar”. Fonte de todas as formas vivas, de guardiã das crianças e matriz para a qual vão os mortos para que nela repousem, se regenerem e renasçam, de alguma forma, graças ao seu caráter santo31.
“Devo pegar uma faca e rasgar o seio de minha mãe?”, disse no final do século XIX um chefe da tribo Wanapum, em território hoje norte-americano, diante da pressão de uma cultura masculinamente dominante para que cultivasse e buscasse minerais no corpo de sua Mãe. “Então,” prosseguiu ele, “quando eu morrer, ela não me tomará em seu seio para que eu repouse. Você me pede para escavar o chão procurando pedra! Posso escavar sob a sua pele à procura de seus ossos? Então, quando eu morrer, não poderei entrar em seu corpo para renascer. Você me pede para cortar grama e fazer feno e vendê-lo, e ficar rico como os homens brancos! Mas como eu ousaria cortar os cabelos de minha mãe?”
UMA VOZ QUE CRESCE
O momento é tão especial para a voz indígena, sob as mais variadas maneiras, que até mesmo os setores dominantes da sociedade a procuram ouvir. Ou pelo menos deixar que a ouçam um pouco. Este é o caso da canonização de Juan Diego. Pela primeira vez na história das Américas um indígena foi canonizado. O beato Juan Diego, um índio mexicano de origem chichimeca, cujo nome indígena original era Cuauhtloatzin, a quem o Vaticano reconhece que Nossa Senhora de Guadalupe apareceu várias vezes, teve a sua santidade reconhecida em cerimônia celebrada pelo próprio Papa no México, apesar da debilidade de sua saúde. É bom lembrar que a Virgem de Guadalupe é exatamente a Santa Padroeira das Américas, continente no qual, sabemos, foram executados milhões e milhões de indígenas. Somente em se tratando dos astecas, que à época da chegada de Hernán Cortez eram uma civilização altamente sofisticada com 25 milhões de pessoas, o massacre resultou em 24 milhões de pessoas assassinadas em menos de um século.
Temos que ter realmente um cuidado muito especial com a questão indígena, pois estamos falando de povos cuja presença em suas terras, na maioria das quais foram expulsos, remonta a tempos imemoriais. Presentes desde o Círculo Ártico às Américas, África e Ásia, calcula-se que hoje são cerca de 300 milhões de pessoas que vivem em mais de 70 países.
Sabemos que o tapar ouvidos à voz indígena destrói inclusive a maioria daqueles que ocupam as posições econômicas, políticas e sociais privilegiadas, pois eles são em verdade excluídos de si mesmos, de suas próprias essências, como nos mostram a corrupção, as drogas caríssimas, o crime organizado, o comportamento doentio que enche os consultórios terapêuticos, o dia-a-dia e os noticiários de todo o mundo.
O que se chama de desenvolvimento, movido pela opção unidimensional do poder humano ignorante da existência da Totalidade, envolve e atinge a todos sem levar em conta a especificidade de suas múltiplas histórias, de suas culturas, de suas línguas, de suas tradições, de suas necessidades e prioridades. Corta, sumariamente, todos os seus projetos de vida, vínculos econômicos, culturais e espirituais que são a essência da identidade do humano. Reduz-se tudo e todos ao jugo do lucro e da obtenção de poder. Com isto faz-se qualquer coisa que o ego queira, como se não existisse uma ordem provinda de uma dimensão não-humana, pré-cultural, que a tudo criou, sustenta e transforma. Todo o esforço visto de assassinar a Mãe. Assim pode-se compreender a filha que matou os pais de classe média em São Paulo em 2002.
Lamentavelmente esta maneira ignorante de organizar a vida humana vem destruindo as pessoas e os povos em todos os continentes, sejam eles habitados por brancos louros de olhos azuis, quanto negros de pele brilhante, quanto amarelos, mulatos, caboclos e de qualquer outra matiz de pele ou interna32. Quanto mais próxima a cultura está consciente da origem comum mais este sistema lhe reserva um lugar de sofrimento. É fácil entender agora porque os indígenas estão na mais baixa escala social. E as suas mulheres mais abaixo ainda…33 Eles pagam o preço de serem a memória viva da Natureza enquanto viva.
A gravidade é tão extrema que o sistema da ONU, sobretudo nas duas últimas décadas, tem procurado sintonizar-se diretamente34 com este interesse cada vez maior pela voz indígena. Neste sentido é que tem havido uma presença crescente de representantes indígenas em fóruns internacionais, como no Grupo de Trabalho das Nacões Unidas sobre as Populações Indígenas, orgão da Subcomissão sobre a Promoção e a Proteção dos Direitos Humanos, e naturalmente no Grupo de Trabalho sobre a Declaracão dos Direitos dos Povos Indígenas.
Um dos avanços mais significativos dos últimos tempos em termos internacionais foi a decisão tomada em julho de 2000 em relação à constituição de um Fórum Permanente das Nações Unidas para os Povos Indígenas, como orgão do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, e que vem a ser o mais alto fórum já criado na ONU para cuidar deste assunto.
Os indígenas vêm lutando muito pela inclusão da denominação Povos Indígenas nos documentos oficiais, pela ratificação fundamental do Convênio 169 da Organização Internacional do Trabalho-OIT, que reconhece seus direitos no campo do Trabalho, pela abertura de espaços de participação em todos os níveis de decisão que lhes atingem, de cotas e inclusão da questão indígena nos Conselhos, nos Ministérios, nos organismos internacionais, pela demarcação e homologação das terras indígenas. Enfim, um sem número de lutas, pois praticamente tudo lhes foi negado uma vez que o paradigma Ocidente, como vimos, construiu-se na exata medida da proporção com a qual matou em si mesmo a consciência de fazer parte de um todo.
Na dimensão brasileira, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB consagrou a Campanha da Fraternidade de 2002 exatamente aos povos indígenas, com o tema “Por uma terra sem males”. Mesmo que sejam procedentes críticas a esta campanha, por seu acento explícito na Catequese, como se pode ver em vídeo preparado pela Arquidiocese do Rio de Janeiro, e veiculado na Rede Globo, quando todos os índios que aparecem são convertidos e aparecem todo o tempo em uma missa, sabemos que setores significativos da Igreja Católica são progressistas e efetivamente estão dedicados a que se escute a voz indígena.
Sincronicamente a esta situação, por incrível que pareça, a população indígena no Brasil vem crescendo muito nas últimas duas décadas. Se nos anos 80 tínhamos cerca de 260 mil índios, na virada do milênio eles já eram aproximadamente 350 mil, e hoje a Fundação Nacional do Índio os estima em 540 mil, distribuídos em 206 nações indígenas localizadas em todos os estados da Federação, à exceção apenas do Piauí.
O que chama muita atenção neste quadro demográfico é que para cada cidadão urbano brasileiro que nasce hoje estão nascendo três índios. Isto é impressionante, pois traz, na medida em que assumamos a nossa parcela de responsabilidade no processo, uma enorme contribuição para que o Brasil e a Humanidade re-conecte com a Natureza enquanto viva, pois como diz Ailton Krenak, coordenador do Centro de Pesquisas Indígenas, do povo Krenak de Minas Gerais, “muitas comunidades indígenas, mesmo tendo sofrido enormes mudanças no aspecto mais aparente de sua cultura, especialmente no tocante à “cultura material” (que é representada nos adornos, objetos de uso ritual, ou domésticos)” mantêm “a força mais sutil da alma” e “sua herança mais ancestral permanece. Mesmo que transmutada, (ela) continua alimentando a identidade”.
RESULTADO DA APLICAÇÃO DE MEDICINAS ANCESTRAIS
Pois é a partir desta conexão com a Mãe Universal que nossos irmãos indígenas35, por exemplo, descobriram o algodão, para o qual criaram todas as técnicas de colheita, fiação, tecelagem e tintura mais tarde importadas pelos europeus; foram eles também que descobriram o chocolate; e o milho, que era cultivado nas três américas, com cada povo com seus híbridos favoritos, que atingem dezenas de variedades, formatos, cores, sabores, nutrientes, entre eles o milho azul (hoje, no entanto, o milho é uniformizado pela indústria agro-pecuária no mundo todo); o amendoim também, original da costa brasileira; o tabaco, que os europeus transformaram de um costume medicinal e cerimonial em um vício mortal; a própria batata, que no início foi banida pelo clero pois não era mencionada na Bíblia; o tomate também; a mandioca que, apesar de venenosa em seu estado cru, já era depurada do ácido cianídrico pelos índios; e a seringueira, que deu origem à borracha e dispensa comentários acerca de sua importância.
Quem entre nós não conhece feijão, abóbora, pepino, chuchu, batata-doce, berinjela, alcachofra, pimentas, abacate, abacaxi, caju, mamão, maracujá e variedades de banana, por exemplo? Pois é tudo descoberta indígena. Trabalho indígena. Cultivo indígena. As várias ervas medicinais, para dar mais um exemplo, cujas fórmulas indígenas foram aperfeiçoadas pelo homem branco, compõem mais de três quartos de todas as drogas de origem vegetal conhecidas. Com exceção de algumas poucas espécies, nos lembra o xamã e etnobiólogo Rogério Favilla, não há espécie utilizada na farmacopéia moderna cujas propriedades já não fossem conhecidas pelos índios. E ainda há muitas outras espécies que são desconhecidas pelo homem civilizado.
É Favilla que esclarece: “Aos nativos pré-colombianos devemos, entre inúmeras coisas, a rica herança etnobotânica que revolucionaria a dietária e a farmacopéia comparativamente precária dos europeus colonizadores e de suas matrizes desde época das navegações. Não apenas apresentaram aos pasmos europeus as plantas em si, como o milho, o tomate, a batata, o tabaco, o cacau, a mandioca, o inhame, o feijão, o caju, a batata-doce, o abacate, o pepino, a berinjela, o abacaxi, o palmito, e tantas outras hoje presentes nos pratos de todo o mundo (dos que tem acesso aos alimentos, é claro), mas também ensinaram como cultivá-los e prepará-los adequadamente (a mandioca e seu ácido prússico, por exemplo). Ao contrário dos que pensam serem os nativos criaturas obtusas, a arte do cultivo e melhoria genética através da cuidadosa seleção das linhagens e de técnicas sofisticadas de plantio e adubagem foi plenamente desenvolvida pelos ameríndios”36.
Como haveria ciência sem a sabedoria indígena? E para além da dimensão científica, já no nível da reformulação política e social, o Ocidente também aprendeu muito com a voz indígena, como assinala com perfeição Favilla: “No campo da reformulação social e política que se prenunciava na Europa do século XVIII encontramos a descrição utópica da vida comunal dos índios brasileiros nos relatos de cronistas populares como Léry, Thevet e Hans Staden influenciando profundamente as formulações filosófico-políticas de ideólogos da Revolução Francesa (e da Revolução Americana) como Montaigne e Rosseau37“.
É muito interessante lembrar que, além disso, temos um exemplo arquetípico da importância indígena. Arquetípico porque diz respeito a sede do Império atual: os estados Unidos. Quando os colonos patriarcas ingleses desembarcaram do Mayflower lá, tiveram suas vidas salvas pelos nativos, que os ensinaram como caçar o abundante peru, pescar o salmão e as trutas, e a plantar e estocar o milho. Foi esta sabedoria que permitiu que eles sobrevivessem ao primeiro inverno. Até hoje este momento decisivo é anualmente relembrado pelos EUA no importante feriado, e olha que eles são raros, de Thanksgiving Day.
O PERDÃO CONQUISTA A LIBERDADE
Do alto de toda esta sabedoria, os indígenas estão hoje diante do desafio de exercer uma das mais desafiadoras posições do crescimento humano, espiritual: a do perdão. Da mesma forma como temos que perdoar a nós mesmos por todas as nossas barbaridades e de nossos antepassados auto-referentes. Somente assim poderemos nos desfazer de todas as nossas histórias pessoais (com suas mágoas, ressentimentos, desejo de vingança) para, servindo ao Sagrado -no estado de canais, pois a Fonte é a Vida, é o Processo Criador- compartilhar o Mundo.
É desta forma que a voz indígena vive um momento decisivo dentro de nós. Como Pierre Weil38 esclareceu, a busca constante de felicidade que caracteriza o ser humano confirma a presença de uma memória enterrada no âmago de sua existência. É ela. A memória de um estado de plenitude sem obstáculos e de êxtase permanente. É deste estado que nos fala a Voz Indígena. E confirmam as tradições espirituais que dela nasceram em todo o mundo. E confirma a Ciência desatrelada do mercado do desejo. Falam do centro de nós. Do Amor da Mãe, da Alegria da Criança, da Harmonia de Casal39. Falam da Sabedoria Ancestral. Fala a Mãe que nos pariu. Falam as tecnologias espirituais que possibilitam o verdadeiro diálogo entre as civilizações. Que fundam uma nova política. Fundada no des-esquecimento da Deusa e do Deus.
A tradição hinduísta nos mostra, em sua iconografia, Shiva e sua esposa Parvati (Shakti) lado a lado, com Shakti ligeiramente à frente, cobrindo um pouco o corpo de Shiva. Ou seja, só se atinge à Consciência (a Luz) através da Deusa. É por isto que Abraão dos judeus não nos deixa esquecer que é somente através da Mãe que acessamos a Luz. Ele afirma: “Olhai para Abraão, vosso pai, e para Sara, aquela que vos deu à luz” (Isaías 51,2).
Sem dúvida, como mostram a Tradição40 e a Ciência fundada na existência do Ser, como o Modelo de Comunicação Cosmo-dinâmico e Multi-interativo, uma contribuição à Teoria da Unificação41, o caminho do diálogo passa pelo aprendizado com a Mãe que nos deu à Luz: Lealdade, Força e Entrega.
Pois como canta Everlast e toca Santana, se “há um monstro vivendo
sob a minha cama / sussurando em meus ouvidos / existe um anjo com a mão
na minha cabeça / Ela (o grifo é meu) diz que eu não tenho
nada a temer”.
Evandro Vieira Ouriques
Terapeuta, Escritor, Doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ,
Cientista Político e Jornalista. Dedica-se -a partir de suas pesquisas
e vivências no campo das relações entre política,
espiritualidade e cura- à Filosofia Terapêutica e a sua aplicação
em pessoas, organizações, mídia e coletividades. É membro
da Comissão Executiva do Movimento Inter-Religioso do Rio de Janeiro/ISER,
membro-fundador da ONG Shalom Salam Paz, Diretor de Estratégia Cultural
da Federação de Yoga do Estado do Rio de Janeiro e membro do
Conselho Diretor do Centro de Estudos Transdisciplinares de Comunicação
e Consciência-CETCC/ Escola de Comunicação/UFRJ, que criou
em 1981.
1 Este registro vem do reconhecimento eterno a
Gary Smith, irmão extraordinário,
anjo guerreiro -tremendamente forte-, feroz e fiel urso amigo, exemplo real
de auto-transformação de quem um dia, em suas próprias
palavras, foi “mau”. Como ex-fuzileiro naval americano no Vietnã,
foi, em suas próprias palavras, “mau”. Na guerra, na qual
chegou aos 18 anos de idade, mais de duas dezenas de pessoas encontraram a
morte em suas mãos. Eu encontrei plenitude de Vida. Gary me apareceu
em 19 de Agosto de 2002 como aliado decisivo, juntamente com Rogério,
na ancoragem, que nos coube fazer, da sabedoria ancestral na Assembléia
Global da United Religions Initiative-URI no Rio de Janeiro, que reuniu, de
sua rede mundial, 260 líderes espirituais grass-roots de 50 países,
de 18 a 25 daquele agosto histórico.
O momento chave deste processo foi a Cerimônia Inter-Religiosa de Fogo,
que reuniu, no dia 22, na Floresta da Tijuca, 120 lideranças internacionais
identificadas e mais de 100 brasileiros, à frente o famoso grupo de
pajés da Amazônia liderado pelo também amigo e irmão
muito especial, Moura Tukano, e sua esposa Verônica. Domingo, dia 25,
nos despedimos em frente à Igrega de Nossa Senhora da Glória,
após termos encerrado a Aldeia Sagrada, organizada pelo Movimento Inter-Religioso
do Rio de Janeiro, a parte pública da Assembléia da URI. Ele
voou para Washington e apenas três dias depois Gary morreu dormindo.
Uma honra muito profunda ser amigo de Gary Smith, este índio iroquês,
aceito como irmão por todas as seis nações que compõem,
como os Onayda, os Wolf Clan e os Daiwana, o grupo iroquês, tão
importante para a tradição indígena mundial quanto os
Medici, por exemplo, entre as grandes famílias ocidentais. Gary, também
mensageiro da profecia maia, me ensinou muito sobre lealdade, força
e entrega. Aqui planto esta semente, neste papel que é árvore,
como aquele pinheiro que Rogério e eu plantamos em sua homenagem na
Floresta da Tijuca.
2 Ver, por exemplo, SHELDRAKE, Rupert. O Renascimento da Natureza. O reflorescimento da Ciência e de Deus. Editora Cultrix, São Paulo. 1997; e, especialmente, os trabalhos da historiadora Riane Eisler.
3 Comunicação entendida como o local da religação dos saberes (em termos de Edgard Morin); o local da Vida, o local de todos os locais, uma vez que a Vida, sendo inquestionavelmente a manifestação do Imanifesto –o Ser- é sua comunicação, Estar vivo, como tudo, é comunicar. Tudo é, apenas, comunicação. Apropriando-me de uma expressão de Heidegger, ponte que une o humano ao divino.
4 De acordo com Gheerbrant&Chevalier (Dictionaire des Symboles, Robert Laffont/Jupiter, Paris,1988), Hécate possui os dois aspectos da Mãe Natureza: fertilidade, germinação, proteção da navegação e da pesca, prosperidade, eloquência, vitória, purificação; e, ao mesmo tempo, é a deusa dos espectros e dos terrores noturnos, dos fantasmas e dos monstros aterradores, mestra em feitiçaria. Já Nêmesis está associada à agricultura e dela depende a fertilidade ou não da Terra e consequentemente a sobrevivência humana. E Kali, Ma Durga, é a deusa do hinduísmo que destrói as ilusões. Quando Shiva, o deus da Consciência, dorme, ou seja, quando a inconsciência está ativa e do seu corpo surge outro corpo igual, Shava, em sânscrito exatamente inconsciência, ela dança sobre ele destruindo-o, com a ferocidade das ferocidades. De acordo com a tradição hinduísta é isto que está ocorrendo com a Humanidade, para que ela acorde.
5 LAMA, Dalai e CUTLER, Howard C. A arte da felicidade: um manual para a Vida. Martins Fontes 2001. p. 63-70
6 Op. cit. p. 63
7 Id. p.68-69
8 MATURANA, Humberto. Sobre o amor. p.183
9 Id.
10 Id. p.184
11 Vale observar o comportamento masoquista, disseminado em nossa sociedade na medida que o poder virou o eixo organizador. De acordo com a teoria reichiana, o caráter masoquista inibe toda a sensação forte de prazer e a transforma em desprazer, o que cria uma cadeia de sofrimento retro-alimentado. Bem ao gosto de uma sociedade consumista, que busca sempre uma recompensa após o castigo, que é o consumo após o trabalho sem amor e a submissão a uma vida de horrores.
12 Maturana p. 184
13 Ver FEUERSTEIN, Georg. A tradição do yoga. Editora Pensamento, São Paulo, 2000.
14 É sórdido quando se atribue este fato ao movimento hippie, quando o que ele falava neste campo era da ordem da sexualidade como vivida pelo verdadeiro tantrismo, que nada tem a ver com o tristemente famoso “tantra da Califórnia.
15 Como Muniz Sodré aponta a necessidade em Jogos Extremos do Espírito. Rocco. Rio de Janeiro, 1994.
16 Ver OURIQUES, Evandro Vieira. A Tradição e a Ciência na Unidade do Humano e do Ser. Um novo Modelo de Comunicação e Cultura a partir das Tradições Espirituais e da Ciência Contemporânea. Tese de Doutoramento em Comunicação em Cultura pelo Programa de Pós-Graduação da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Presidida por Paulo Vaz, então Diretor da Escola de Comunicação da UFRJ, a Banca, em agosto de 2001, foi formada por Marcio Tavares d’Amaral, Eliane Ganem e Priscila Kuperman, sendo suplentes Michel Misse e José Argolo do Amaral, Diretor da Escola de Comunicação empossado em 2002. A Banca atestou por um lado a inexistência, até então, de um Modelo de tal ordem no campo da Teoria da Comunicação, e, por outro, a sua veracidade científica.
17 LAGE, Janaína e MAGALHÃES, Lúcia N. Vértice: uma revista de cultura. Relatório Técnico de Final de Curso de Comunicação Social. Orientador Professor Daniel Welman. Escola de Comunicação, UFRJ, 2002
18 Elas são muitas vezes diferentes das religiões, pois na maior parte das vezes as religiões, como nos mostra a História, pouco praticam os valores profundos de que “falam”.
19 Maturana, op. cit., p.185
20 Letra da música Ageless Spirit, do CD Native Spirit-Spirit of the Drum, de Ana Marie. Prelude World Music&Arts. www.anamarie.com.br
21 BATESON, Gregory. Una unidad sagrada: pasos ulteriores hacia una ecología de la mente. Gedisa Editorial, Barcelona, España. 1993
22 Ao avaliar o cumprimento dos compromissos firmados na ECO-92, os grandes fóruns governamentais e não-governamentais Rio+5 e Rio+10 pouco têm a comemorar.
23 No sentido de Georg Feurstein. Tecnologia por tecnologia, porque não usarmos aquelas medicinas de todas as dimensões da Vida que nossos antepassados conhecem e que têm a garantia comprovada de 80 mil anos de testes? Quem no neo-liberalismo, atual nome da política do ego-autoreferenciado- pode oferecer tal garantia? O serviço de telefonia no Brasil, por exemplo, chegou a fechar as lojas de atendimento ao público em todo o país, obrigando o consumidor a “falar” com ela através de máquina, apenas nas hipóteses previstas por ela…ou com sorte “falar” com um funcionário “repetidor de conteúdo”, impregnado por um treinamento no qual o Outro não existe, é apenas “a fonte do meu salário”, enquanto o “patrão”, seja ele o nome que tiver, repete para si mesmo e para todos, procurando justificar o injustificável: “é a fonte do meu lucro”
24 Grof, Stanislav. Psicologia do Futuro. Lições das Pesquisas Modernas de Consciência. Heresis, Niterói, 2000. p.29.
25 WEIL, Pierre. A Neurose do Paraíso Perdido. Cepa, Rio de Janeiro, 1987. p.34.
26 SHELDRAKE, op.cit., p.30.
27 Sheldrake, op.cit., p.50.
28 idem, p.53.
29 Sobre esta questão é muito bom ler O Renascimento da Natureza-o reflorescimento da Ciência e de Deus, do biólogo e filósofo da natureza Rupert Sheldrake, publicado pela Editora Cultrix, no qual ele faz uma síntese brilhante e clara de como a Humanidade desconectou-se da Natureza quando o pacífico modo humano de vida vigente por milhares de anos foi rompido entre 4.000 e 3.500 a.C por hordas de invasores cujos deuses guerreiros destronaram as antigas deusas, rebaixando-as a esposas, filhas e consortes nos novos panteões dominados pelo patriarcado, e como esta reconexão vem acontecendo ao nível filosófico e científico.
30 Para mais de 7.500 a.C.
31 Ver, p.ex.: ELIADE, Mircea, Tratado de História das Religiões, 193-212; e ZIMMER, Heinrich, Filosofias da India, pp. 117, 180, 189, 190, 311, 389, 391, 396, 404, 407 e 409.
32 As imagens extraordinárias de Sebastião Salgado atestam o que falo.
33 Ler artigo de Eliane Potiguara neste livro.
34 A percepção em verdade é anterior, ainda que indireta. Na década de 70 a UNESCO começou a trabalhar o conceito de Desenvolvimento Cultural, ou seja, que o desenvolvimento econômico real só é possível a partir dos próprios valores culturais de cada comunidade. Toda a minha atuação no longo tempo que atuei no Ministério da Cultura do Brasil, a partir de 1980, foi neste sentido.
35 Carrego com honra a identidade indígena Buhabi, dos Tuyuca/Tukano, da Amazônia.
36 In Cultura Xamânica e Sabedoria Ancestral, Rogério Favilla, neste livro.
37 Ver os livros de Afonso Arinos de Melo Franco O Índio Brasileiro e a Revolução Francesa e As Origens Brasileiras da Teoria da Bondade Natural (publicados pela Coleção Documentos Brasileiros, José Olímpio, Rio de Janeiro, 1937) e citados por Moog, Viana: Pioneiros e Bandeirantes: paralelo entre duas culturas, Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 7a edição, 1964.
38 Ver WEIL, Pierre. A Neurose do Paraíso Perdido. Co-edição Espaço e Tempo/CEPA, Rio de Janeiro, 1987
39 Título -que foi dado por minha esposa, Estelitta Amorim- de meu artigo de final de ano na Revista Frater, com as tendências do comportamento psico-social em 2003, para fins de melhor desempenho estratégico de pessoas e organizações. Ano I, no. 08, Dezembro de 2002. Editora Frater. Rio de Janeiro. www.revistafrater.com.br
40 E o que é a Tradição? Claro, não estamos falando do comportamento convencional ou do apego a hábitos conservadores, reacionários, inquisitoriais e que impedem o centramento do indivíduo, a criatividade, a liberdade, a transformação. Isto é algo da pior espécie. A Tradição, em verdade, é algo completamente oposto a isto, conforme se constata nas tradições espirituais do mundo e em cientistas profundos como René Guenon, Mircea Eliade, Joseph Campbell, Rupert Sheldrake, Pierre Weil, Ken Wilber, entre muitos e muitos outros. Tradição é a síntese profunda das artes e sabedorias tradicionais. Isto é, a essência dos conhecimentos antigos da humanidade, cuja origem, na maioria das vezes, é multi-milenar. Ver meus livros Yoga Tradição e Ciência: um encontro revelador para os dias de hoje; e Tempo e Eternidade: o caminho da cura. Ambos pela Ciência Moderna, 2003.
41 Este é um assunto muito importante do qual que tratarei em outro lugar. Um dos maiores desafios da Física moderna é desenvolver uma teoria que descreva de forma unificada todos os fenômenos do Universo. Que unifique as forças básicas da natureza. O grande obstáculo é a incompatibilidade entre duas das principais teorias físicas deste século, a relatividade geral e a mecânica quântica. O meu método está sintonizado com uma teoria de tudo, pois as leis constituintes da totalidade são as mesmas e são elas que orientam todas as dimensões da Vida, como procuro evidenciar em todo o meu trabalho.