Prefácio
Marta Porto
Juntamente com o Voluntariado, o ano de 2001 foi dedicado ao Diálogo entre Civilizações e teve, acredito, este aspecto um pouco esquecido. Para não repetirmos o erro, precisamos refletir bastante sobre a representação do diálogo. O que consiste esta manifestação no mundo, num momento em que as relações estão tão turbulentas? Para as agências das Nações Unidas, o diálogo surge a partir da idéia da diversidade, que, pelo último Fórum de Cultura da Unesco, não pode ser tratada de maneira displicente.
A diversidade existe e é um fato. O ser humano existe num contexto coletivo que é formado pelo diverso, pela diversidade. Mas como entender essa diversidade a partir da idéia do diálogo? Essa é a questão tratada quando nos propomos a discutir não algo voltado apenas para o Diálogo entre Civilizações, mas como uma interface permanente que forma sociedades capazes de se manterem em situação permanente de troca e interação e que não buscam necessariamente o consenso. Buscam sim o espaço da negociação onde todos somos capazes de mediar nossos conflitos em função de um objetivo muito maior, que é uma sociedade democrática, capaz de formar no nosso dia-a-dia pessoas cidadãs, solidárias, tolerantes e que tenham capacidade permanente e, sobretudo, o talento próprio do ser humano de se colocar numa perspectiva autêntica de futuro.
Portanto, o futuro exige um esforço constante de mediação de conflitos. Dentro da Unesco temos sentido muito o que representa a expressão diversidade. Todas as agências da ONU, a partir do planejamento de 2000, visam direcionar os seus esforços, o seu foco maior, para o combate à pobreza.
Desta maneira, todo o esforço da Unesco tem sido difundir a idéia de como a cultura passa a ser entendida: primeiro, uma centralidade no esforço maior no sentido de construir um política voltada para o combate à pobreza e como que ela se manifesta na hora que se pensa no sistema, no modelo ou na referência de construção social que seja capaz de gerar diálogo.
Deste modo, é necessária uma reflexão sobre que tipo de democracia estamos construindo. A quem incluímos no todo e quem é o todo? Quando falamos de inclusão, onde exatamente pretendemos incluir as pessoas? Em que sociedade nos propomos a incluir?
O momento pede uma sofisticação das nossas noções sobre democracia, sobre sociedade e principalmente sobre cultura de paz. A que ponto chegamos que é preciso de guerra para construir paz? Isso é que vem sendo discutindo no planejamento da Unesco nos últimos dois anos. Que paz nós queremos? Quem está incluído nesse conceito de paz? Que democracia é essa?
Todos nós somos sujeitos de direito, direito cívico, direito
sociais, direitos culturais, direitos econômicos. O exercício
e o pensamento permanente do que constitui uma sociedade que garanta esse exercício
dos direitos é que é a grande questão: não é possível
pensar em manter diálogos. O Informe de cultura da Unesco editado em
setembro de 2001 traz a questão da diversidade cultural, que aliás é o
centro da idéia do Diálogo entre Civilizações.
Segundo o Informe “somos todos países e sociedades que soubemos
reconhecer no nosso seio social a nossa diversidade”. No entanto, essa
diversidade só se dá como um bem humano na medida em que ela
se configura como uma construção política. Quando existem
políticas capazes de darem conta de que todos somos seres de direitos,
todos os grupos, todas as maneiras e produções culturais têm
que e desejam ser reconhecidas nesta construção política.
Existe na verdade um hiato entre o que é um reconhecimento da diversidade
como um bem civilizatório e de que maneira a sociedade se constrói
em políticas capazes de abrigar essa enorme diversidade que existe hoje
no mundo. O nosso esforço, na verdade, é pensar na nossa construção
política; é pensar de que maneira construímos democracias
capazes de abrigar essa diversidade e colocá-la em posição
de intercâmbio.
Dentro do panorama mundial, o Brasil é décima primeira potência
econômica do mundo e a 69a. do desenvolvimento humano. Esse dado não
se expressa de uma maneira clara na hora que se apresentam alternativas, porque
se diz que é necessário aumentar o mercado de trabalho e os jovens
precisam ter uma maior inserção profissional. Mas que mercado
de trabalho? Que soluções estamos na verdade engendrando para
mudar essa configuração social? Em que medida falar que projetos
de prevenção à violência ou projetos de inserção
do jovem no mercado mudam essa realidade social e cultural do país? É preciso
nos atermos um pouco mais a essas idéias e a esses conceitos. Não
discutir as estatísticas de uma maneira fria, por mais que elas sejam
deflagradoras de uma realidade que não se deseja. É preciso,
então, que se discuta um pouco a respeito da luta a que a Unesco se
dispõe diariamente, que é abrir os dados, qualificar os dados,
discutí-los, deixar tudo o mais transparente possível para a
construção de uma sociedade mais justa e com parâmetros
mais humanos.
Marta Porto
Jornalista e coordenadora da Unesco no Rio de Janeiro.