A Diversidade e
a Experiência de Fazer Juntos
Reinaldo S. Bulgarelli
Não nos descaracterizem!
Não há no mundo alguém que seja totalmente igual a outro alguém. Pelo que dizem, ainda não há ninguém clonado entre nós e, mesmo que tivéssemos, duvido que seria igual ao original porque viveria num outro tempo e lugar, passaria por outras experiências, conheceria outras pessoas, ouviria outras músicas, enfim, teria outra interação com as pessoas e seus costumes. Nem nós mesmos somos hoje o que fomos ontem, não é mesmo? As coisas mudam e mudam com uma rapidez cada vez maior, espanto de nossos tempos atuais.
Enfim, somos tão diferentes uns dos outros que foi preciso construir uma Declaração Universal dos Direitos Humanos, num determinado momento de nossa história (1948), para nos lembrar que, na origem, todos somos também iguais por termos algo em comum que nos distingue dos outros seres. Isso foi uma conquista da humanidade e podemos, ou melhor, devemos nos incluir nessa conquista e nesta humanidade, sentindo-nos responsáveis por manter e ampliar os direitos fundamentais ali expressos e a nossa experiência humana individual e coletivamente.
Diferentes, queremos assim continuar e não deixar que a igualdade nos descaracterize. Iguais, queremos também assim permanecer e ainda ampliar essa igualdade perante a lei, nossa igualdade jurídica, formal, para não permitir que nossas diferenças nos inferiorizem uns em relação aos outros, como nos lembra tão bem o professor Boaventura.1
É exatamente isso que tememos tanto: que as diferenças sejam um motivo de desigualdades, que questões como sexo, cor de pele, religião, orientação sexual, condições físicas, classe social, idade, entre outras tantas diferenças objetivas que temos, assumam uma relevância que determine o tipo de relação que teremos com a sociedade, com o amor, com o trabalho, com a cultura, com os bens e riquezas produzidos, com o futuro, com a vida, enfim. Afinal, mesmo quando temos algumas características marcantes, básicas, como o fato de ser homem ou mulher, isso não pode determinar ganharmos mais ou menos, ocuparmos lugares de comando ou apenas de subordinação, pertencermos a classe social ou outra, sermos aceitos para algumas coisas e não para outras.
UM PADRÃO QUE NOS DOMINA A TODOS,
SEM EXCEÇÃO...
Somos e queremos ser diferentes, do jeito que nascemos ou do jeito que nos tornamos ou nos tornaram, sem que isso implique discriminações negativas que nos façam prisioneiros de lugares sociais determinados por aqueles que estão em posição privilegiada por se acharem superiores. Esses que se acham superiores têm uma visão tão distorcida de si próprios como aqueles que acabam introjetando a imagem de inferiores de tanto serem assim tratados.
Em nossa sociedade, os homens brancos, heterossexuais, fisicamente perfeitos, segundo a imagem que construímos do que seja perfeito e imperfeito, normal ou anormal, feio ou bonito, entre tantas outras, acabam sendo o padrão dominante e, em relação a eles, todos somos julgados e até mesmo nos julgamos, projetando e introjetando o que “respiramos” o tempo todo.
Os estereótipos nos levam a preconceitos e discriminações que prejudicam os próprios membros do grupo “dominante” e aos outros, às vezes de uma maneira brutal, piorando a qualidade de vida em sociedade, reduzindo nossas oportunidades, diminuindo as nossas chances de realização como humanidade a caminho de um futuro cheio de incertezas porque cheio de possibilidades para nele nos realizarmos.
O prejuízo para as pessoas que fazem parte do padrão dominante é perderem a noção de realidade ao não se perceberem também como membros de um grupo racial, da maneira como se entende raça e como se usa esse conceito para construir relações racializadas e hierarquizadas na sociedade. Sabemos que somos todos membros da raça humana, mas mesmo assim, dividimos o mundo em raças, apesar da ciência, por isso o uso do termo no sentido político, pela influência que tem na vida das pessoas. Só os outros, que não são brancos ou que são diferentes do padrão dominante, pertencem a uma raça?
Os brancos acabam tendo, portanto, uma visão distorcida de si e dos outros. Crescer e ser educado para achar que se é o bonito, o bom, o correto, o útil, o certo, o normal, o padrão para tudo em volta, causa também distorções que prejudicam as pessoas e as afastam de uma imagem real sobre si e sobre os outros.
Se “os normais” são assim, portanto, os outros não o são. Há pessoas do padrão dominante que não toleram as diferenças de forma alguma e jamais acreditam que “os outros” poderão ser iguais aos seres superiores. Há pessoas do padrão dominante que gostariam que esses “outros” se tornassem iguais a eles e vivem assediando e produzindo imagens, linguagens, formas variadas de “converter” a todos para a sua verdade única e eterna. Há pessoas, contudo, que transitam bem pelo mundo das diferenças, mesmo sendo do padrão dominante, renunciando a essa condição e fazendo um exercício enorme para se colocar como diverso como todos são diversos.
A experiência da diversidade, ao afirmar que somos todos diversos, busca também fazer refletir sobre o que é ser parte do padrão dominante e melhorar nossas relações com as pessoas e com o mundo, libertando, na medida em que permite uma visão mais realista dos tais padrões estabelecidos e que podem ser desconstruídos e substituídos por outros mais inclusivos e mais plurais.
NOSSAS DIFERENÇAS ESTÃO EM
PERMANENTE INTERAÇÃO
Em relação aos direitos fundamentais da pessoa humana, somos todos iguais, ou seja, podemos ser e somos diferentes, mas nem por isso desiguais. Mesmo porque, podemos ser diferentes, mas não vivemos sozinhos e, aliás, somos mais felizes quando não somos sozinhos. Nossas diferenças, por maiores que sejam, estão em permanente interação com os outros e suas diferenças, fortalecendo a idéia de igualdade e de democracia exatamente para que possamos viver juntos e construirmos, nessa interação, um projeto de vida, de família, de comunidade, de nação ou de humanidade, ainda mais neste mundo cada vez mais globalizado, tempo das redes, da comunicação, da macro-transição.
Imagine uma mulher que ao mesmo tempo é afro-descendente, cristã, mãe, filha, síndica do prédio onde mora, filiada a um partido político, torcedora de um time de futebol, administradora de empresas, moradora da periferia de São Paulo, nascida no Nordeste, jogadora de vôlei, vítima de câncer de mama, sagitariana, voluntária num grupo comunitário do bairro, neta de italiano por parte de mãe, membro da brigada de incêndio na empresa em que trabalha, magra que já foi obesa…
Enfim, uma pessoa que, como qualquer outra, tem identificações variadas, que se articula com diferentes grupos e movimentos sociais, que interage nestes diferentes espaços com as diferentes idéias, interesses, crenças e valores ali presentes, que determinam a forma das pessoas agirem e buscarem sucesso individual ou coletivamente. Tudo isso, sem perder a sua identidade marcada por uma pluralidade de experiências, vivências, condições, origens, perspectivas e olhares.
Algumas de nossas características são mais marcantes, outras nem tanto. Algumas são óbvias e visíveis, outras mais sutis. Algumas são temporárias, outras são menos. Algumas mudam várias vezes durante a vida, outras são mais estáveis. Algumas nós escolhemos, outras nós adquirimos. Algumas nos foram impostas, dadas ao nascer ou durante a vida. Algumas são frutos de um acidente, da escolha de outros, de coisas que não estavam ao nosso alcance. Algumas são frutos das oportunidades que nos foram apresentadas ou não durante a vida. Algumas são frutos de um estilo de vida. Algumas resultam das bagagens que adquirimos e que nos permitiram ou não realizar boas opções ao longo de nossa história pessoal e até mesmo coletiva.
PODEMOS ESCOLHER COMO LIDAR COM
NOSSAS PRÓPRIAS DIFERENÇAS
Seja como for, podemos escolher, damos pesos diferentes, optamos por nos apresentar ou auto-representar com essa ou aquela característica. Uma pessoa pode ser afro-descendente, com um fenótipo bem definido como tal, e não se ver ou não dar peso algum a isso, por exemplo, diante do pesquisador do IBGE a perguntar sua cor: branca, preta, parda, amarela ou indígena (indígena não é cor, mas eles um dia vão bolar algo melhor para caracterizar as pessoas por raça ou etnia). Essa pessoa pode ser uma daqueles milhares que, quando importunada, declara ser cor de bombom, mulatinhas, morenas, pardas ou azuis.
Uma outra pessoa pode ter a pele clara e, mesmo assim, para espanto do tal
pesquisador, assumir uma postura afirmativa em
relação à sua condição de afro-descendência
ou à sua origem indígena, por exemplo.
Objetivamente, contudo, apesar da auto-representação revelar
maior ou menor consciência ou mesmo gosto pelo pertencimento a um ou
outro grupo racial ou étnico, a sociedade em geral sempre sabe identificar
muito bem as pessoas, hierarquizar racialmente, incluir ou excluir com base
nessa característica básica.
O tratamento que a sociedade confere aos negros, sejam eles pretos ou pardos, segundo o nosso IBGE, não deixa dúvidas sobre a expertise em identificar racialmente para discriminar socialmente, economicamente, culturalmente, afetiva e efetivamente quem pertence a um ou outro grupo, destinando lugares “próprios” a cada um. Os dados das pesquisas governamentais ou não-governamentais demonstram isso o tempo todo. Portanto, se alguém tem dúvidas sobre a própria cor de pele, pergunte para certos policiais, juizes, empregadores, educadores, políticos, entre outros, que são especialistas em identificar para discriminar negativamente. Que saibam esses “profissionais” da identificação que nosso país não é tão mestiço, como se declara até no pensamento, exatamente pela capacidade que algumas pessoas têm de identificar raça, cor ou etnia e gerar discriminações, apartações das mais escandalosas.
A discussão sobre cotas suscita debates muito interessantes e esse da impossibilidade de identificar quem é negro é um deles num país dito mestiço. Como é que conseguem identificar na hora de escolher o elenco de uma novela ou de uma peça teatral? Como é que conseguem fazer isso na hora de contratar pessoas que vão para a linha de frente no contato com o público em geral numa empresa? Como é que conseguem quando realizam avaliações de rendimento ou planos de carreira? Como é que conseguem na hora de definir quem sai mais cedo do sistema de ensino e terá o melhor aproveitamento escolar? Como é que conseguem fazer isso na hora de escolher as imagens que irão compor os livros didáticos, as revistas, os jornais? Como é que conseguem o tempo todo, na hora de prejudicar um grupo da sociedade, e não conseguem na hora de construir efetivamente as condições de igualdade, de oferecer um benefício, um direito, uma oportunidade que poderá mudar a história do país para todos os seus habitantes?
A declaração de uma ou outra descendência pode se dar, assim, muito mais por defesa contra o ataque dos padrões dominantes. Mas poderia se dar, sobretudo, como afirmação de um conjunto de características que se quer ver valorizado, respeitado, integrado em condições de igualdade nessa rede de relações sociais em que todos estamos inseridos. Todos deveriam ter o direito a uma imagem positiva na sociedade para que pudessem mais facilmente construir dentro de si mesmos uma auto-imagem positiva. As fotos, as imagens, as linguagens, enfim, que estão a serviço dos padrões dominantes e do ataque à auto-estima dos “outros” destróem, minam, descaracterizam as diferenças, tentam pasteurizar, homogeneizar tudo em volta como se tudo fosse uma coisa só e não essa rica diversidade que tanto nos qualifica para o sucesso por ser solução e não problema.
Podemos refletir também sobre a consciência feminina e a noção que as mulheres podem ou não adquirir sobre sua condição de mulher numa sociedade machista e que também hierarquiza as relações de gênero. O mesmo vale para os gays, homens ou mulheres, que podem querer assumir essa condição de uma maneira defensiva ou afirmativa, ou mesmo jamais assumi-la diante da família, na escola, no ambiente de trabalho ou diante de si mesmos. Isso determina não apenas uma condição individual, mas coletiva, social. Assumir-se ou não numa ou noutra condição ou situação pode gerar um impacto não apenas na vida da pessoa, mas na vida da sociedade, fazendo avançar ou não, melhorar ou não essa condição ou situação conforme a capacidade de resistência, organização e proposição que adquire.
Hoje, pela forma como os gays se vêem e se percebem na sociedade, pela disposição de cada indivíduo diante do assumir-se ou não como gay, é inconcebível realizar pesquisas sobre orientação sexual em qualquer organização bem-intencionada em relação aos resultados dessa pesquisa. Assim, com esse pensamento ou essa opção, é muito difícil que os gays conquistem os mesmos direitos que mulheres e negros estão ampliando cada vez mais. Não fosse um grupo militante, o pouco que se tem nem existiria por conta dessa postura dos gays brasileiros de não acharem oportuno enfrentar as práticas homofóbicas se autodeclarando ou assumindo-se como tais.
É um jeito de pensar, de ser e de agir que é construído com base nas condições concretas de existência que nos são dadas ou impostas e sobre as quais realizamos escolhas, fazemos nossas opções cotidianas e fundamentais, ampliando nossa liberdade e bem-estar ou reduzindo-os, conforme o estrago que o pensamento dominante causa em nossos mapas mentais, nossas crenças, valores, paradigmas e interesses ou desejos. Podemos transcender aquilo que nos foi dado, podemos tomar nas mãos a própria história e conceber a nós mesmos de uma maneira mais positiva, projetando nosso futuro com uma liberdade e um bem-estar ampliados.
Assumir-se de uma ou outra maneira, ter uma visão positiva ou negativa sobre a própria condição, as próprias características básicas ou secundárias, pode determinar a forma de inserção na sociedade, um lugar social, mas, sobretudo, pode também determinar a forma como as pessoas lidam com esse lugar que lhes é atribuído, sendo alguém que está ou não no padrão dominante. A solidariedade de brancos para com não-brancos e de heterossexuais com homossexuais, por exemplo, demonstra que há possibilidades variadas de mobilidade virtual ou real em relação às hierarquizações sociais dadas ou impostas.2 O importante, portanto, não é aquilo que temos e somos, mas o que fazemos com isso que nos é dado ou imposto.
SER DIFERENTE TORNOU-SE VANTAGEM.
FAÇA A DIFERENÇA!
Voltando ao nosso exemplo da mulher acima, que pode ser afro, mãe, etc,
imagine que em cada um dos lugares onde estamos presentes, por mais reduzida
que seja nossa vida social, somos essa “variedade de variações” e
convivemos com pessoas que têm as suas inúmeras variedades também. É isso
que é a diversidade humana e cultural e é isso que as empresas
e outras organizações sociais estão descobrindo cada vez
mais como um valor bastante positivo. O valor de sermos diferentes e estarmos
vivendo juntos sob o manto das regras de civilidade, regras democráticas
estabelecidas para que possamos cumprir com nossos compromissos, no espaço
privado ou público, realizar nossos projetos pessoais ou coletivos de
felicidade.
A empresa moderna, sobretudo, está percebendo que a melhor forma de sobreviver e se perpetuar, numa sociedade em que as mudanças estão cada vez mais rápidas, é sendo flexível, criativa, aberta ao novo, proativa, inovadora, conseguindo enxergar e sendo vista por diferentes segmentos ou grupos com os quais mantém relações e que são parte interessada no negócio: seus colaboradores, fornecedores, acionistas, clientes, concorrentes, a comunidade, o poder público e a sociedade em geral.
Uma empresa que discrimina portadores de deficiência física, por exemplo, pode estar perdendo um excelente funcionário para uma concorrente, um grande cliente, um bom negócio ou a sua valiosa imagem diante da sociedade, que despreza cada vez mais quem discrimina negativamente, gera exclusão e apartação.
Valorizar a diversidade, além de ser uma atitude corporativa das melhores, é também uma necessidade e, por conseqüência, um bom negócio. Valor é aquilo que pesa na hora de tomarmos uma decisão, aquilo que tem significado e, por isso mesmo, torna-se uma prática, uma ação, uma atitude concreta a favor de algo e contra algo. Como a diversidade é um valor, há empresas aqui e no mundo que estão promovendo a diversidade em todas essas relações, buscando uma maneira de realizar os seus negócios de um jeito que respeite e até incentive as diferenças, fazendo com que elas concorram para melhorar os resultados, a relação com a sociedade e a própria vida em sociedade.
Há empresas que estão buscando contratar colaboradores e fornecedores de fontes variadas. Há outras que até procuram investir numa educação de melhor qualidade para aqueles segmentos discriminados, para que possam integrar o mercado de trabalho de uma maneira mais “empoderada”, rompendo com a exclusão em que estão inseridos. Há empresas que estão colocando pessoas de outros segmentos (além do “padrão dominante”) nas suas peças publicitárias e de comunicação em geral, ajudando a tirar essas pessoas daqueles lugares determinados em que estão aprisionadas: mulheres comprando carros, homens lavando louça, mulheres negras comprando roupas de grife, portadores de deficiência em práticas esportivas e assim por diante.
Não estranhe se a sua diferença, aquilo que você esconde
ou procura diluir numa série de outros atributos que você tem,
for “pinçada” por uma dessas empresas afinadas com a Era
do Conhecimento e com os desafios do nosso tempo. Se você for convidado
para trabalhar e progredir numa dessas empresas, não será por
conta da sua semelhança com todos os outros, principalmente do “padrão
dominante”. Sentir-se diverso, saber-se assim e assim reconhecer-se e
apresentar-se, mesmo sendo membro do grupo dominante, é fundamental
para ir além daquilo que já está estabelecido. Saber ser
o que é e acolher os outros, dentro do horizonte ético dos direitos
humanos, das leis que emancipam e dão espaço para todos, faz
com que a diferença faça a diferença.
As pessoas estão sendo respeitadas e acolhidas nestes ambientes exatamente
por conta da sua diferença, desde que elas realmente façam a
diferença. Uma diferença que é apenas superficial, não
faz a diferença, mas aquela que é valorizada, considerada pela
própria pessoa, que produz idéias sobre si mesma e sobre o mundo
de maneira inovadora em relação ao padrão, pode contribuir
melhor para a construção de um mix criativo, sinérgico
e que ajuda a todos no enfrentamento dos desafios da vida no plano individual
e coletivo.
Portanto, não tema e seja você mesmo, valorize você também aquilo que o torna especial e único. Mais do que a sua cor de pele ou a sua orientação sexual (ou as duas características juntas numa só pessoa) é a sua bagagem, a sua experiência, o olhar peculiar que você possui que está sendo valorizado para construir, a partir das diferenças respeitadas e incentivadas, acolhidas e garantidas, um mix que gera essa sinergia e promove o seu sucesso, o sucesso dos negócios e uma sociedade, enfim, bem-sucedida.
A diversidade como valor fortalece e se fortalece com o movimento de responsabilidade social corporativa porque, além de tudo, está identificada com os interesses legítimos da sociedade e contribui para a superação de desigualdades intoleráveis geradas pela discriminação arbitrária, sem justificativa, injustas, portanto. As discriminações positivas, ou seja, aquelas que ajudam a corrigir as desigualdades históricas e persistentes que todos construímos (herdando ou mantendo), são bem-vindas num ambiente que valoriza a diversidade.
Se a empresa tem uma vaga de gerência, todas as outras foram ocupadas por homens e estão concorrendo homens e mulheres em iguais condições de terem o posto (mérito, capacidade e talento), por que não discriminar positivamente uma mulher para o cargo? A empresa precisa também do olhar feminino e as mulheres agradecem essa distinção, caso contrário, se deixar o barco correr ao sabor dos padrões dominantes e dos estereótipos, sabe quando as mulheres, os negros, os idosos, os jovens, as pessoas portadoras de deficiência, os gays estarão nos lugares onde hoje ainda não os vemos com freqüência? Nunca!
Se você é chefe, cuidado para não perder talentos ou impedir que esses talentos se desenvolvam por conta dos seus preconceitos. Se você é subordinado de alguém que pertence a um grupo que geralmente não está em posição de chefia, por ser gay, negro, mulher, deficiente, mais jovem que você, mais velho que seu avô, com um sotaque diferente do seu, com uma experiência de vida diferente da sua, com outra religião ou forma de professar sua fé, cuidado para não deixar de aproveitar a convivência com alguém diferente de você, numa relação que pode ser de complementaridade e não de competição, como estamos acostumados ou como somos geralmente induzidos a assim agir por uma lógica que não é mais a de uma empresa moderna.
Se seu colega é diferente de você ou dos padrões que você acha “normais”, interaja, não deixe de ser o que você é e nem o obrigue a ser como você, sabendo que estamos todos construindo um novo tempo, num diálogo democrático que pode mudar nosso país e o mundo. Não somos tão pobres assim, como dizem alguns, mas injustos. A lógica da inclusão, em todos os campos, principalmente no trabalho, pode alterar o mapa de desigualdades raciais, de gênero e sociais que temos produzido. Para isso, precisamos mudar os nossos próprios mapas mentais que determinam a forma como todos nós nos vemos e vemos aos outros, interpretamos o nosso passado, lidamos com o nosso presente e projetamos o nosso futuro.
Diversos somos nós todos e todos somos responsáveis por promover a diversidade como valor em nossas vidas e em todos os lugares onde estamos ou onde pretendemos chegar um dia. Seja você também uma pessoa, um profissional, um cidadão que valoriza a diversidade, lutando pelo seu espaço ou compreendendo, aceitando e incentivando que outros, apesar das muitas qualidades que você possui, também tenham a chance de estar em lugares onde a sociedade não costuma lhes dar a oportunidade de ocuparem.
Essas pessoas não chegarão lá porque são diferentes apenas, mas porque também têm mérito, também têm qualidades que, em geral, não são reconhecidas. É verdade que ter mérito é fundamental para estar em determinados lugares, mas também é verdade que a concepção de mérito, os critérios com os quais analisamos os tais méritos estão profundamente ligados ao padrão dominante assim dado e imposto a todos nós, oferecendo farto material subjetivo para a inclusão ou exclusão das pessoas.
Todos temos o direito de sermos felizes e todos podemos fazer a diferença
na vida da empresa, na nossa própria vida, na vida em sociedade, no
diálogo entre as civilizações. Aproveitemos os novos tempos!
Reinaldo
S. Bulgarelli
Educador e Diretor-Executivo da AMCE Negócios Sustentáveis.
1 “Temos o direito de ser igual quando a diferença nos inferioriza, temos o direito de ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza.” Boaventura Santos.
2 “Nós nos encontramos embarcados num corpo, numa família, num meio, numa classe, numa pátria, numa época que não escolhemos. Por que estou aqui e não ali? Agora e não depois?” Emanuel Mounier.