Entre
Fundamentalistas e Modernistas,
Várias Histórias
Rubem César Fernandes
Assustados ainda com o ataque terrorista de 11 de Setembro e buscando fôlego para recuperar uma visão mais ampla, proponho dedicar alguns minutos de reflexão ao tema do “Fundamentalismo”.
Pela terrível ironia da história, o conceito surgiu nos próprios Estados Unidos, no início do século 20. Expressou uma reação de pastores protestantes americanos aos avanços da ciência. Redigiram um documento em que afirmavam “Os Fundamentos” da fé cristã, que estariam ameaçados, segundo eles, pela crítica científica. A ciência ultrapassara os muros das universidades, invadira os Seminários e passara daí para o púlpito das igrejas, corrompendo as bases do cristianismo.
O documento teve um impacto extraordinário e deu substância a um movimento que transformou o cenário religioso e cultural dos EUA. Afetou as diversas denominações protestantes e dividiu o campo religioso entre “Fundamentalistas”, de um lado, e seus adversários, a quem chamaram de “Modernistas”.
O foco da polêmica foi o tratamento dado ao Livro Sagrado pela exegese científica. Orientados pela lingüística e pela crítica literária, os estudiosos dissecaram a Bíblia como um documento histórico. Mostraram haver diferenças profundas de linguagem e de referências entre os capítulos e mesmo no interior de certos capítulos, fragmentando o texto e relativizando o seu significado. Para a surpresa dos fiéis, a Bíblia passou a ser estudada como um documento construído historicamente e, portanto, suscetível de múltiplas influências externas.
Em contraponto, buscando recuperar a sacralidade da Palavra Revelada, os Fundamentalistas afirmaram a verdade literal do texto. Jonas estava mesmo na barriga do peixe, o mundo foi de fato criado em sete dias, o Mar Vermelho dividiu-se realmente em dois, abrindo caminho para o Povo Escolhido. A defesa do texto da Bíblia tornou-se a pedra de toque na defesa da tradição. Vemos o reflexo disto ainda hoje entre os Evangélicos no Brasil, freqüentemente chamados de “os Bíblia”, que a exibem orgulhosamente aos domingos, a caminho da igreja.
Destaco aqui um primeiro ponto para a nossa reflexão: forçada pela ciência a um debate sobre fatos históricos, a reação fundamentalista passou a defender o texto sagrado como um conjunto de afirmações empíricas. Incorporou, portanto, o paradoxo posto pela própria exegese científica, que aborda o fruto da revelação como um fato positivo. Antes deste debate, o problema da exatidão dos fatos não estava colocado.
O relato do Gênesis propiciava simplesmente comentários sobre as relações entre a Criatura e o seu Criador. As histórias e as parábolas orientavam o pensamento para a reflexão sobre as grandes questões da humanidade à luz da fé cristã. Os fatos relatados faziam pensar e sentir, criando um horizonte comum para a memória e a imaginação. Sua veracidade não estava em questão. Ao afirmar o “literalismo” como um fundamento da fé e disputar a verdade dos fatos relatados, os pastores aceitaram, implícita e paradoxalmente, os termos da ciência. Fincaram pé no campo da modernidade.
Assim, ao invés de representar simplesmente uma volta ao passado, contra o avanço dos tempos modernos, os Fundamentalistas marcaram o século com o seu debate, dividindo igrejas em polêmicas violentas que pareciam perpetuar a guerra da secessão no plano simbólico religioso.
Com a força do fundamentalismo, cultivada nos templos a cada domingo, os Estados do Sul e as regiões interioranas do “Cinturão Bíblico” perpetuaram sua oposição político-cultural às elites do Norte e da Nova Inglaterra. Diferenças de múltiplos tipos ganharam uma feição ideológica, como um grande conflito religioso.
Revendo esta história quase um século mais tarde, percebemos que a dureza da oposição se desfez. De um lado, o próprio sucesso do movimento fundamentalista nos EUA levou à formação de Seminários e de centros de pesquisa que voltaram a assimilar certos valores da ciência. O interesse pelos números das conversões aproximou-os das ciências sociais quantitativas; a busca de meios mais eficazes de evangelização levou-os a assimilar as técnicas e a arte da comunicação; a coerência reacionária inicial deu lugar a uma variedade de posições intermediárias no interior da polêmica ideológico-religiosa.
Por outro lado, o campo da teologia liberal, acusado de “Modernista”, abriu-se para o reconhecimento de que, de fato, padecia de uma crise de fé. Trabalhada pelo racionalismo da ciência, a religiosidade liberal parecia reduzir-se a uma ética ou a uma política, empobrecendo-se de expressões sacras. Esvaziava-se o mistério e o poder místico. O cristianismo deslizava para um humanismo. Já nos anos setenta, sociólogos de peso, como Peter Berger, passaram a rever o sentido da polêmica, reconhecendo certas verdades na crítica fundamentalista. E mais, elementos do pensamento liberal foram aproximados de certos elementos dos “Fundamentos da Fé”. A polaridade não se desfez, mas as alternativas intermédias ganharam mais expressão, não tanto no campo teórico, mas sim no estilo do culto e da prática religiosa.
Destaco, então, um segundo ponto para a reflexão: ao fim de um século de conflitos religiosos nos EUA predomina nos meios mais esclarecidos a opinião de que, afinal, o Fundamentalismo teve o seu valor. Não foi pura loucura ou fanatismo. Apesar de sua radicalidade anticientífica, ou talvez graças a ela, logrou atualizar a leitura ingênua das histórias sagradas. Enquanto a mística da fé enfraquecia-se nos meios progressistas liberais, a reação fundamentalista revigorava o culto dos fiéis em oração. A reação do início do século 20, intolerante e obscura como foi, ajudou afinal a compor a cultura religiosa norte-americana do século 21.
Um terceiro ponto a refletir, complementar aos anteriores, é que todo este debate, com suas idas e vindas, foi elaborado e ganhou força em função dos avanços da ciência. A reação não se manteve em sua postura simplesmente negativa. Ao contrário, para sobreviver e seguir fazendo sentido, foi levada a assimilar ao menos a parte tecnológica da cultura científica. A religiosidade tradicional, com seus ritos e mitos, foi levada a buscar lugar num espaço simbólico que já não é formado e dominado por ela. Em suma, o Fundamentalismo fez-se contra o avanço da modernidade, mas por isto mesmo dela faz parte e nela há de encontrar, ou não, o seu espaço duradouro.
A questão do Fundamentalismo torna-se mais complexa, é claro, quando posta no plano internacional. Na dinâmica da globalização, a variedade dos confrontos e sua densidade ultrapassam os limites conhecidos. A julgar pelo que foi visto ao longo de um século no interior de um único país, os EUA, é de se supor que o futuro nos reserva uma história cruel de ações e reações ordenadas pela polêmica contra o “Modernismo” em nome dos “Fundamentos” de múltiplas tradições. E mais, no plano internacional, a reação se faz não apenas contra a dessacralização dos textos e ritos sagrados, mas também contra o avanço do cristianismo, enquanto religião que é portadora, justamente, dos valores da modernidade.
Vemos aí o paradoxo: o movimento missionário do século 20 foi alimentado, sobretudo, pelas correntes conservadoras do cristianismo norte-americano e europeu. Enquanto a teologia de inspiração liberal investia no ecumenismo e na difusão das letras e ciências, criando escolas e hospitais, carreando recursos para a “cooperação internacional”, visível hoje no trabalho das ONGs, os Fundamentalistas protestantes e as Ordens do ultraconservadorismo católico lançaram-se ao mundo para ganhar almas para o Evangelho.
Assim, paradoxalmente, os reacionários do Norte ganharam mundo como os modernizadores do Sul. A economia de mercado, o individualismo, as tecnologias ganham uma feição religiosa predominantemente fundamentalista. Uma feição com freqüência guerreira, ainda que a guerra se limite ao plano simbólico, pregando a ruptura radical com as antigas tradições locais. O crescimento das igrejas evangélicas e pentecostais no Brasil tem esta feição: socialmente modernizadoras, com uma linguagem religiosa conservadora e um estilo aguerrido, de confronto com o culto dos Santos e com as tradições afro-brasileiras.
No plano global, o confronto ideológico religioso corre o risco de ser dominado pela oposição entre Fundamentalismos. A performance do governo Bush e o apoio da opinião que tem recebido nos EUA, bem como o crescimento da xenofobia na Europa dão sinais, na política, da relevância desta tendência até mesmo no interior das sociedades de orientação liberal democrática. Confirmam, assim, a presença da corrente de pensamento fundamentalista em sua cultura profunda.
Devemos, pois, viver mais um século de conflitos que fazem sentido e que, por isto mesmo, tendem a se multiplicar, numa dinâmica que ultrapassa os limites do razoável, gerando o absurdo da destruição violenta de vidas e valores que a todos, de algum modo, importam.
Se o horizonte pode ser assim tão ameaçador, palavras como “Diálogo” e “Paz” continuarão
a ser radicalmente relevantes. A Paz é necessária porque temos
a Guerra. Não fora a violência, não haveria porque pronunciá-la.
Concluo, então, com um comentário às chances do Diálogo
e da Paz em meio aos conflitos que nos cercam.
Ao fim da Segunda Guerra Mundial cresceu no mundo uma ideologia progressista
que afirmava a universalização dos direitos humanos, no sentido
mais abrangente da expressão. Disputava-se os caminhos do progresso,
se pelo capitalismo ou pelo socialismo, mas compartilhava-se a crença
de que as benesses do progresso viriam para todos. Hoje, esta crença
está abalada. A universalidade dos direitos e dos valores ainda é afirmada,
mas os caminhos que a eles podem levar tornaram-se questionáveis em
muitos casos. A desigualdade das oportunidades tornou-se mais visível.
As “vantagens comparativas” passaram a contar como componente decisiva
do que pode vir a se passar. A história voltou a mostrar sua face cruel.
Em tal ambiente, vale refletir que o vasto processo de globalização é composto de muitas histórias particulares. E que a afirmação do “Diálogo” e da “Paz” enfrenta, conseqüentemente, múltiplos desafios e oportunidades diversas. Sua relevância é universal, mas a sua concretude, a história que realmente faz, varia de contexto a contexto. Pronunciadas em sua generalidade, essas palavras correm o risco de soar como um coral de anjos, belo porém desencarnado. O desafio, pois, é encontrar o ponto e a forma particular de relevância, de modo a que a palavra “Paz” torne-se a um tempo perigosa e razoável o suficiente para gerar esperança naquele contexto em que estamos.
Do modo semelhante, cumpre encontrar os interlocutores e os termos de um “Diálogo” que
abra espaço para as mediações, ultrapassando a cegueira
das dicotomias radicais. O Diálogo que realmente conta é aquele
capaz de penetrar os campos hoje opostos, sejam Fundamentalistas ou Modernizadores.
Em suma, assim me parece, a relevância dos ideais que inspiram este livro
será demonstrada segundo as múltiplas circunstâncias que
hão de compor cada história particular que nos será dada
viver.
Rubem César Fernandes
Sociólogo, é Diretor-Executivo do Movimento Viva Rio e
do Instituto Superior de Estudos da Religião.